Sete
couros extrapolou os limites quando cometeu um crime que o colocou nas
manchetes nacionais.
O ano era 1987. Há detalhes do acontecimento que as
pessoas comentam até hoje. Alguns são explicáveis, outros nem tanto. Manuel
estava numa noite de sábado em um bar que não costumava frequentar. Teve um
desentendimento com o dono do lugar e foi expulso sob vaias das pessoas que lá
estavam. O bandido simplesmente tomou seu caminho, mas voltou meia hora depois
com duas pistolas automáticas e começou a atirar nas pessoas. Sete morreram e
quinze ficaram feridos. O dono do bar, incrivelmente, foi atingido à distância
com um tiro na cabeça, mesmo estando no meio das pessoas. Visitei o local que
não é mais bar, mas ainda mantem a estrutura básica de antes. Agora é uma
oficina mecânica e os espaços antes preenchidos por mesas e cadeiras é ocupado
por carros, motores e homens sujos de graxa. O filho do falecido proprietário
do lugar, agora no comando da oficina, estava presente na noite do crime. “Eu
era garoto e estava perto do caixa, atrás do balcão e vi quando ele chegou”,
contou o homem em pé, ao meu lado bem na entrada do imóvel. Apontou na direção
dos trabalhadores. “Meu pai estava lá, bem no fim, conversando com um cliente,
ele parou aqui e atirou. Papai caiu e aí começou a correria e mais tiros. Um
empregado me puxou para debaixo do balcão e eu não vi mais nada”. Esse feito
chamou a atenção das pessoas e quando preso, o assassino disse que os demônios
tinham guiado sua mão. Sete couros não tinha o costume de atirar, mas já o
fizera algumas vezes, não era absurdo que tivesse boa mira ou tivesse sorte no
primeiro disparo. As armas que usou naquele dia também foram alvo de
controvérsia por serem novas e sofisticadas. Sete disse que os demônios tinham
lhe dado. Isso ajudou a aumentar a aura diabólica em volta dele. Como era um
bandido pobre, então esse presente só podia ser dos infernos, acreditaram. No
entanto é mais lógico pensar que, apesar de pobre, não era absurdo que um homem
dedicado ao crime como ele pudesse um dia se apossar de armas como aquelas.
Ainda mais que já se envolvera com assaltantes de alto nível. Mas preferiu-se
crer que Sete couros cometeu o crime sob influência e ajuda diabólica. Isso foi
reforçado porque sobreviventes declararam que o assassino exibia olhos
vermelhos no momento do crime e que pequenos diabos o acompanhavam e riam com
ele enquanto caminhava e atirava. Falei com três testemunhas pessoalmente e
todas elas, mesmo relutantes em falar, me contaram a mesma coisa: havia algo de
demoníaco em Sete couros e ele não estava sozinho. Seus olhos estavam acesos
como brasas e um grupo de anões deformados o seguia. Um deles inclusive, segurava
Sete pela cintura com uma mão, com a outra, apontava as vítimas para o matador.
Em meio ao som dos tiros, gritos e barulho de coisas caindo no chão, se ouvia a
risada desses supostos diabos. Outros sobreviventes do massacre contaram que
Sete tinha o rosto tão demoníaco que pensaram que ele estivesse usando uma
máscara de carnaval. “Eu estava na entrada, numa mesa no canto, caí no chão e
fiquei encolhida quando começou. Pensei que fosse morrer de tiro ou de medo,
mas não deixei de olhar. Ele passou de costas para mim, seguido por uns
baixinhos horríveis. Teve um momento que se virou de lado e eu vi a cara
dele... Parecia um monstro de filme, os olhos acesos, a boca aberta com dentes
enormes”, me contou Lara, outra sobrevivente. A mulher acha que sobreviveu
porque o assassino concentrou seus tiros em direção aos fundos do bar onde
tinha mais gente. Outras pessoas disseram que não viram ninguém com Sete, mas
isso porque simplesmente o olharam muito rápido. “O pânico foi muito grande. O
lugar era um grande retângulo, de um lado um balcão comprido, do outro lado, o
espaço total com o povo. Não tinha pra onde correr. Ele estava bem diante da
saída, de boa, atirando à vontade”, me contou Guilherme por telefone. Ele disse
que foi atingido e logo desmaiou não vendo muitos detalhes. Quando confrontado
sobre cúmplices anões, Sete couros deu risada. O delegado achou que as
histórias exageradas eram fruto de embriaguez, pânico e boatos. O bandido foi
devidamente condenado. Ficou preso por quatro anos até fugir com seis colegas.
Cinco deles foram recapturados, um morreu e apenas Sete couros continua
foragido. Há quem fale que ele simplesmente foi morto em segredo ou vive
escondido, porém o que mais se escuta é que sua fuga foi um favorecimento
demoníaco e que ele está por aí cometendo seus crimes.
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