Manuel
Gomes, o Sete Couros entrou em profunda decadência após à morte da sua mãe. Não
que isso
tenha tido alguma influência maior em sua vida. Como foi dito, e
devidamente confirmado, o bandido não se importava com a mãe biológica. Sua
única fonte de afeição na vida fora a avó. Certamente foi apenas coincidência
que tivesse entrado numa espiral decadente pouco depois da morte daquela que o
pôs no mundo. O homem não teve mais êxitos nos seus crimes e passou a andar com
uma aparência miserável pelo bairro. Pedia bebida e cigarros a quem encontrava.
Nesse tempo, um jovem malandro de nome Isaías, o espancou. A humilhação de Sete
couros ficou ainda mais completa quando foi preso e ficou mais de um ano na
prisão. Curiosamente saiu de lá fortalecido. Fez um dos poucos grandes crimes
de sua vida nesse tempo. Auxiliou um grupo de assaltantes, ganhou dinheiro e
voltou ao bairro exibindo-se e, ao contrário de antes, pagando bebidas e por
vezes acendendo cigarros e baseados para logo entregar aos convivas que com ele
estavam. Encontrou Isaias nesse tempo e cometeu um dos crimes mais comentados.
Morando em outra casa, Sete couros, encarcerou o inimigo, o torturou-o por
semanas, o assassinou e depois cortou o homem em vários pedaços. É incrível
saber que Sete couros nunca foi punido por isso. Quando o crime foi descoberto
– os restos do corpo de Isaías foram achados numa lixeira – o assassino fugiu.
Ficou meses foragido e quando voltou, foi premiado por uma polícia indiferente
a crimes cometidos contra bandidos sem importância do naipe de Isaías. Obtive detalhes
sórdidos do crime e estes me foram repetidos exaustivamente. Disseram que Sete
couros teria sodomizado sua vítima inúmeras vezes. Também o queimou, cortou sua
pele e o espancou severamente. Tudo isso enquanto Isaías esteve acorrentado no
fundo do seu quintal. Por vezes pediu socorro, mas a vizinhança temendo
represálias, ficava em silêncio, além do que, não podia ter certeza daqueles
pedidos de ajuda. Em algumas ocasiões, me disseram, Sete couros o tratou
melhor, alimentando-o bem e tratando seus ferimentos. Tudo isso para que
melhorasse e vivesse por mais tempo, suportando novas torturas. O assassino
chegou a contratar André, um jovem malandro na época que tinha uma máquina
fotográfica. Convenceu o rapaz a registar imagens dele tendo relações forçadas
com Isaías. Consegui conversar com esse fotógrafo, agora um senhor respeitável,
longe desse submundo há vários anos. Ele me confirmou as monstruosidades de
Sete couros, inclusive esse episódio em que foi convidado a fotografar tais
sevícias. “Pior era que eu não sabia que aquilo era forçado”, falou o homem
sentado na varanda de sua casa com o ar de admiração de quem devidamente
recorda um fato absurdo do passado. “Manuel era um cara doido, fazia coisa com
homem, mulher, até bicho... Numa ocasião, um carnaval, vestido de mulher, me
pediu para tirar fotos enquanto beijava um moleque na boca. Isaías parecia de
boa enquanto Manuel... Bem, você sabe...”, contou André. O homem falou que
nunca revelou as fotos. Disse que teria vergonha de levar àquilo a um estúdio
fotográfico. Enrolou Sete couros até ele esquecer disso. E se desfez do filme.
Quando soube do crime, ficou ainda mais aliviado por não revelar as fotografias.
André também disse que ficou muito mais tranquilo quando reencontrou Sete
couros anos depois e ele teria dito: “Ainda bem que ocê não revelou aquelas
fotos!” Como sabia que o outro nunca o fizera, é um mistério. Foi nesse tempo
que André também se afastou daquele mundo de crime e violência. “Eu era jovem e
idiota, achava aquele mundo fantástico, mas, graças a Deus, caí na real”,
falou. Foi estudar, aprender mais sobre fotografia, tornando-se um excelente
profissional. Casou e se mudou do bairro. Depois do episódio com Isaías, Sete
couros ficou vivendo discretamente, chamando pouca atenção aqui e ali com suas
contravenções. Mas não demorou a chamar a atenção e chocar por outros atos ainda piores
do que fizera.

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