Sempre
movido por uma vida de disputas, crimes e, irado com a morte da avó, Sete couros
partiu em
busca de vingança. Nesse caminho matou dois homens. Alguns discordam
desse número informando que foram mais. Só encontrei comprovação de dois: um
suposto parceiro de crimes de Fernando, o assassino de sua avó, o outro, um
sujeito que se interpôs alegando a inocência de Fernando e desafiando Sete
couros. O homem ficou famoso na história do assassino por ter dito inúmeras
vezes: “Ele pode vir, pensa que eu sou uma garotinha que ele faz o que quer?” O
embate entre os dois foi inevitável. Sete couros desarmou o homem usando os
punhos, tomou-lhe a faca e o degolou. Sua fama de valente e forte se espalhou
ainda mais. A polícia já andava em seu encalço, enquanto Fernando se escondia
dele. O matador se deparou com o ex parceiro do assassino da avó. O amigo de
Fernando, temeroso, alegou que não tinha nada a ver com o crime. Dizem que Sete
couros teria dito: “sei disso, vou te matar só porque se meteu na história
falando besteira!” E disparou contra o homem desarmado. É provável que esse ímpeto
de Manuel, aumentou na boca do povo o número de crimes enquanto caçava
Fernando... Talvez não. O fato de eu não encontrar evidências de outras mortes
não invalida a possibilidade dos crimes terem acontecido. Algumas vezes eu me
deparei com a indiferença ou indisposição de policiais no que se referia a
revelar os arquivos de Sete couros. Some-se a isso a impunidade dos obscuros
anos oitenta. De qualquer modo, consegui apurar que o homem continuou sua caçada,
entretanto se deparou com um profundo desapontamento quando Fernando foi preso.
Dizem que Sete couros cogitou até mesmo se deixar apanhar para encontrar o
inimigo na prisão e ir à forra, mas desistiu quando soube que isso seria
complicado demais. “Um dia as pedras se encontram”, disse ele. Ele nutria
profunda esperança de encontrar o desafeto. porém se deparou com notícia de que
Fernando fora morto na cadeia por causa de um maço de cigarros. Sua ira aumento
muito nesse tempo. Saiu cometendo crimes à esmo sem o cuidado e a frieza que
tivera antes. Foi preso duas vezes, mas fugiu de ambas delegacias. Às vezes era
visto andando pelo bairro falando sozinho. Interpelava conhecidos e apontava
para supostos demônios que dizia segui-lo. Alguns especulam que começava a
manifestar algum problema mental nessa época, outros que ele realmente via
essas coisas devido às maldições que carregava. O interessante é que Sete
couros nunca foi diagnosticado com qualquer problema mental. Mesmo tendo
passado por delegacias e instituições a vida toda. Além do mais agia
normalmente nas mais diversas ocasiões. Uma pessoa me disse que eu ele
simplesmente acreditava nas suas visões e nunca agira descontrolado do ponto de
vista mental. Nenhum de seus crimes fora praticado em caráter delirante. Um dia
a polícia invadiu a residência de Sete couros, a casa onde se estabelecera
depois de deixar a favela, e encontrou restos mortais de duas pessoas. Passou
muito tempo foragido, regressando ao bairro apenas oito meses depois. Voltou a
morar na favela, no barraco que fora da avó. Nesse tempo sua mãe faleceu, mas
ele tratou o acontecido com indiferença. Quando recebeu a notícia da morte da
genitora, limitou-se a balançar a cabeça e dizer: “nunca foi minha mãe de
verdade”. O pai há muito tempo tinha ido embora e ele andava sozinho no mundo,
irascível e compenetrado nas suas ações.
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