domingo, 12 de maio de 2019

SETE COUROS (Conto de terror)

As histórias em torno dele eram tão prolíferas que eram difíceis de acompanhar. E isso me
surpreendeu grandemente quando resolvi registrar a história de Manuel Gomes Ferreira, o Sete couros. Achei que iria seguir uma linha reta a partir do relato dos meus parentes mais velhos, mas essa vereda logo se mostrou cheia de ramificações. Tão logo voltei ao meu antigo bairro com o intuito de escrever sobre o matador, não foram poucas as pessoas que se ofereceram para dar seus depoimentos. Minha avó, tios, tias, assim como primos ainda vivem no lugar. Cada um deles me falou sobre Sete couros me ajudando a criar a espinha dorsal da narrativa. E então, logo que souberam do meu trabalho, a quantidade de pessoas que vieram me ajudar só aumentou. Eu tinha me tornado uma subcelebridade por causa do meu sucesso em venda de livros de histórias assustadoras, além de ter escrito uma série de sucesso para uma plataforma de streaming. Nada que me fizesse ser perseguido por multidões, mas no meu bairro, apontado orgulhosamente por meus parentes, eu experimentei os louros da fama. Mas, essa história não é sobre mim, nem sobre minha ficção. Eu estava escrevendo sobre um maníaco que ficara famoso nos anos oitenta e vivia um impasse em relação a obra. Não era uma biografia – eu não sei escrever uma – e nem acho que uma sobre um matador em série de terras brasileiras, violador e ladrão barato, fazia sentido. Enfim, decidi fazer o registro e escrever o máximo possível sobre Sete couros numa espécie de memória, talvez um vasto estudo sobre um assassino de verdade que eu pudera conhecer pessoalmente e que me fizeram fascinado pelo macabro e obscuro. Pessoalmente, digo de passagem, num nível bem distante, pois o conhecimento sobre ele se limitou a vê-lo tomando aguardente no bar da esquina e ouvir o que falavam dele. Aproveito para registrar que os psicopatas descritos em minhas histórias são ligeiramente baseados na figura de Sete couros. Não lhes dei maiores características do matador que eu conheci, pois sempre tentei preservar sua imagem. Falando assim, fica estranho que alguém tente preservar um matador sanguinário. Mas a explicação é simples. Meus matadores da ficção tiveram um ou outro traço de Manuel Gomes Ferreira porque eu sabia que um dia escreveria sobre ele. Além do mais seria um insulto à minha criatividade de escritor roubar totalmente a vida de um ser humano real – por pior que este seja –, e quando minha narrativa sobre o assassino Sete couros surgisse, nada seria novo pois eu já o teria retratado numa suposta ficção. Sem mais explicações – eu não tenho mais nenhuma – esta é a história de Sete Couros.

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