As
histórias em torno dele eram tão prolíferas que eram difíceis de acompanhar. E
isso me
surpreendeu grandemente quando resolvi registrar a história de Manuel
Gomes Ferreira, o Sete couros. Achei que iria seguir uma linha reta a partir do
relato dos meus parentes mais velhos, mas essa vereda logo se mostrou cheia de
ramificações. Tão logo voltei ao meu antigo bairro com o intuito de escrever
sobre o matador, não foram poucas as pessoas que se ofereceram para dar seus
depoimentos. Minha avó, tios, tias, assim como primos ainda vivem no lugar. Cada
um deles me falou sobre Sete couros me ajudando a criar a espinha dorsal da
narrativa. E então, logo que souberam do meu trabalho, a quantidade de pessoas
que vieram me ajudar só aumentou. Eu tinha me tornado uma subcelebridade por
causa do meu sucesso em venda de livros de histórias assustadoras, além de ter
escrito uma série de sucesso para uma plataforma de streaming. Nada que me fizesse
ser perseguido por multidões, mas no meu bairro, apontado orgulhosamente por
meus parentes, eu experimentei os louros da fama. Mas, essa história não é sobre
mim, nem sobre minha ficção. Eu estava escrevendo sobre um maníaco que ficara
famoso nos anos oitenta e vivia um impasse em relação a obra. Não era uma
biografia – eu não sei escrever uma – e nem acho que uma sobre um matador em
série de terras brasileiras, violador e ladrão barato, fazia sentido. Enfim,
decidi fazer o registro e escrever o máximo possível sobre Sete couros numa
espécie de memória, talvez um vasto estudo sobre um assassino de verdade que eu
pudera conhecer pessoalmente e que me fizeram fascinado pelo macabro e obscuro.
Pessoalmente, digo de passagem, num nível bem distante, pois o conhecimento
sobre ele se limitou a vê-lo tomando aguardente no bar da esquina e ouvir o que
falavam dele. Aproveito para registrar que os psicopatas descritos em minhas
histórias são ligeiramente baseados na figura de Sete couros. Não lhes dei
maiores características do matador que eu conheci, pois sempre tentei preservar
sua imagem. Falando assim, fica estranho que alguém tente preservar um matador
sanguinário. Mas a explicação é simples. Meus matadores da ficção tiveram um ou
outro traço de Manuel Gomes Ferreira porque eu sabia que um dia escreveria
sobre ele. Além do mais seria um insulto à minha criatividade de escritor
roubar totalmente a vida de um ser humano real – por pior que este seja –, e quando
minha narrativa sobre o assassino Sete couros surgisse, nada seria novo pois eu
já o teria retratado numa suposta ficção. Sem mais explicações – eu não tenho
mais nenhuma – esta é a história de Sete Couros.
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