sexta-feira, 3 de maio de 2019

OS SENHORES DO MAL Parte 4. (Conto de terror)

Recordo ter dado uma longa olhada no quadro de Irineu Albertino. Apesar de ser uma imagem
estática, eu não saber o quanto a pintura era fidedigna ao retratado, eu achava que podia ver uma aura de ódio por trás daqueles olhos. Talvez eu estivesse impressionado ou adivinhasse o que viria. Não dormi naquela noite. Fiquei recluso, totalmente alheio às conversas animadas dos meus amigos que, naquele momento nem sequer recordavam as impressionantes manifestações que havíamos presenciados juntos. Fui pro meu canto experimentando uma atroz solidão. Não dormi nenhum instante, passando as horas ouvindo música e lendo no celular um e-book de H.P. Lovecraft. Devia ser de madrugada quando as coisas começaram. Primeiramente os barulhos, depois aquele vulto diante de mim. Nem pensei, levantei e saí correndo dali, mas ao chegar no corredor, o mundo, ou pelo menos minha realidade se transformou. O ambiente que antes estava numa penumbra onde os objetos podiam ser razoavelmente reconhecidos se tornou claro como a luz do dia. Procurei meus amigos em seus respectivos quartos, mas não os achei. Percebi que os móveis eram outros. Fui até a sala e me deparei com o patriarca em pessoa. Irineu Albertino estava em pé na sala. Agora sim, ao invés de um vulto, um espectro indefinido, ali estava uma aparição devidamente identificável. O sr. Albertino sentou-se numa das poltronas da sala e logo eu vi outros homens bem vestidos com trajes antigos. Iniciava-se uma reunião e eu era uma testemunha invisível para aqueles homens. Aproximei-me para ouvir o que diziam. Percebi que falavam uma língua estrangeira... Alemão? Sim, era o que parecia. Em alguns momentos alternavam para o português e riam. Sabia que não estava sonhando, mas esperava a qualquer momento que algo me tirasse daquela dimensão e eu voltasse para meu presente com meus amigos. Houve um momento em que um jovem negro de uns vinte anos de idade, usando um largo paletó, entrou na sala, fez uma mesura e começou a distribuir charutos. Os homens comentaram satisfeitos sobre a qualidade dos presentes e agradeceram ao anfitrião, mas de repente o jovem, que certamente era um escravo, sacou uma faca e atacou um daqueles homens na garganta. Outros negros surgiram de todos os lados com facões, pedaços de madeira e tochas. Iniciou-se uma matança e aquilo começou a me causar um extremo mal estrar. Por mais que estivesse vendo uma vingança perpetrada em esferas do além da morte por causa de maus tratos, aquilo era extremamente realista e perturbador. Recuei, soltando um gemido de repulsa e isso chamou a atenção dos matadores. Um deles se aproximou de mim, a ponto de eu sentir o calor no rosto da tocha que empunhava. Sem falar nada me entregou o fogo. Os outros se posicionaram e começaram a pôr fogo em tudo ao redor: cadáveres, móveis, cortinas, livros e carpetes. Experimentei um ataque de euforia e comecei a andar pelo recinto colocando fogo, auxiliando os revoltosos. Um deles me encarou sorrindo, ri de volta num reconhecimento de quem tem como inimigo comum a maldade, o preconceito e a desumanidade de considerar os semelhantes inferiores. Então nesse momento fui arrebatado por braços fortes. Era Pedro junto com Mauro me tomaram a tocha. Em seguida eles trataram de apagar o único móvel que pegava fogo na sala. As garotas espantadas olhando para mim e ao redor. A casa de novo estava como antes. Ali somente nosso grupo, poucos móveis. O mais antigo deles, diante de mim, preto e fumegante. Meus amigos perguntaram se eu estava louco. Contei-lhes tudo que vira. Imediatamente concordaram em partir, mas não sem antes contatarem o caseiro para pagar o prejuízo. Partimos por volta de meio dia. E eu apenas fiquei lamentando que os escravos, em vida, não tivessem de fato cometido aquela revolta. Bem, pelo menos eles estavam no além acenando para nós, mostrando o que devia ser feito!

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