Recordo
ter dado uma longa olhada no quadro de Irineu Albertino. Apesar de ser uma
imagem
estática, eu não saber o quanto a pintura era fidedigna ao retratado, eu
achava que podia ver uma aura de ódio por trás daqueles olhos. Talvez eu
estivesse impressionado ou adivinhasse o que viria. Não dormi naquela noite.
Fiquei recluso, totalmente alheio às conversas animadas dos meus amigos que,
naquele momento nem sequer recordavam as impressionantes manifestações que
havíamos presenciados juntos. Fui pro meu canto experimentando uma atroz
solidão. Não dormi nenhum instante, passando as horas ouvindo música e lendo no
celular um e-book de H.P. Lovecraft. Devia ser de madrugada quando as coisas
começaram. Primeiramente os barulhos, depois aquele vulto diante de mim. Nem
pensei, levantei e saí correndo dali, mas ao chegar no corredor, o mundo, ou
pelo menos minha realidade se transformou. O ambiente que antes estava numa
penumbra onde os objetos podiam ser razoavelmente reconhecidos se tornou claro
como a luz do dia. Procurei meus amigos em seus respectivos quartos, mas não os
achei. Percebi que os móveis eram outros. Fui até a sala e me deparei com o
patriarca em pessoa. Irineu Albertino estava em pé na sala. Agora sim, ao invés
de um vulto, um espectro indefinido, ali estava uma aparição devidamente identificável.
O sr. Albertino sentou-se numa das poltronas da sala e logo eu vi outros homens
bem vestidos com trajes antigos. Iniciava-se uma reunião e eu era uma
testemunha invisível para aqueles homens. Aproximei-me para ouvir o que diziam.
Percebi que falavam uma língua estrangeira... Alemão? Sim, era o que parecia.
Em alguns momentos alternavam para o português e riam. Sabia que não estava
sonhando, mas esperava a qualquer momento que algo me tirasse daquela dimensão
e eu voltasse para meu presente com meus amigos. Houve um momento em que um
jovem negro de uns vinte anos de idade, usando um largo paletó, entrou na sala,
fez uma mesura e começou a distribuir charutos. Os homens comentaram
satisfeitos sobre a qualidade dos presentes e agradeceram ao anfitrião, mas de
repente o jovem, que certamente era um escravo, sacou uma faca e atacou um
daqueles homens na garganta. Outros negros surgiram de todos os lados com
facões, pedaços de madeira e tochas. Iniciou-se uma matança e aquilo começou a
me causar um extremo mal estrar. Por mais que estivesse vendo uma vingança
perpetrada em esferas do além da morte por causa de maus tratos, aquilo era
extremamente realista e perturbador. Recuei, soltando um gemido de repulsa e
isso chamou a atenção dos matadores. Um deles se aproximou de mim, a ponto de
eu sentir o calor no rosto da tocha que empunhava. Sem falar nada me entregou o
fogo. Os outros se posicionaram e começaram a pôr fogo em tudo ao redor: cadáveres,
móveis, cortinas, livros e carpetes. Experimentei um ataque de euforia e
comecei a andar pelo recinto colocando fogo, auxiliando os revoltosos. Um deles
me encarou sorrindo, ri de volta num reconhecimento de quem tem como inimigo
comum a maldade, o preconceito e a desumanidade de considerar os semelhantes
inferiores. Então nesse momento fui arrebatado por braços fortes. Era Pedro
junto com Mauro me tomaram a tocha. Em seguida eles trataram de apagar o único
móvel que pegava fogo na sala. As garotas espantadas olhando para mim e ao
redor. A casa de novo estava como antes. Ali somente nosso grupo, poucos móveis.
O mais antigo deles, diante de mim, preto e fumegante. Meus amigos perguntaram
se eu estava louco. Contei-lhes tudo que vira. Imediatamente concordaram em
partir, mas não sem antes contatarem o caseiro para pagar o prejuízo. Partimos
por volta de meio dia. E eu apenas fiquei lamentando que os escravos, em vida,
não tivessem de fato cometido aquela revolta. Bem, pelo menos eles estavam no
além acenando para nós, mostrando o que devia ser feito!
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