Ficamos boa parte da manhã conversando sobre a possibilidade de irmos embora ou ficar o tempo
combinado. Eu e Pedro estávamos inclinados a partir, eu mais que ele. Os outros insistiam que era melhor ficar, até mesmo examinar aquilo mais de perto. Eles diziam compreender que eu era o mais assustado, pois vira alguma coisa, mas que eu ficasse despreocupado, iriam me proteger. Nunca tinha ficado desconfortável no meio deles, dos dois casais, um único solteiro do grupo cujo o fim do namoro meses antes me deixara arrasado e choroso nos ombros deles. Mas agora, único solteiro, gay, abandonado depois de um relacionamento de dois anos e terrivelmente assustado, me senti muito mal. Parecia que me tornara o peso para o grupo. Foi então que, sobretudo para não parecer covarde e estraga prazeres, cedi aos apelos e ficamos. Passamos a manhã preparando o almoço, bebendo e experimentando mais um pouco de erva. Andamos pela casa e ao redor dela. Priscila e Mauro chamaram nossas atenções ao encontrar alguns tijolos marcados nos fundos da casa. Ali, estavam os famigerados tijolos com suásticas em uma parte que não tinha reboco. Eu examinei de perto e pelo relevo e textura dava pra acreditar que eram reais. Eu não podia afirmar aquilo cem por cento, mas era algo bem plausível. Adiamos o passeio da tarde – indicado pelo locatário da casa - e ficamos conversando, tecendo teorias sobre as assombrações da noite passada. O que mais nos deixava transtornados era o fato de ninguém ter mencionado atividades sobrenaturais. Havíamos tanto ouvido falar da propriedade, boatos exagerados, mas estranhamente – e eu acho que adorariam fazê-lo – ninguém falou de assombrações. Pensamos em contatar o caseiro, mas logo desistimos disso. Meus amigos e eu estávamos atrás da residência, ao ar livre, ocupando mesas e cadeiras próximas a uma piscina rústica. Após os limites da propriedade, a imensidão de matas exuberantes. Por ali havia uma trilha curta que conduzia a um rio e cachoeira. Observando aquela paisagem, fui tomado de uma tristeza imensa. Apesar de toda a beleza do lugar, não conseguia deixar de imaginar como aquilo tudo soava ainda mais pesaroso para as pessoas que viviam ali trabalhando num regime de escravidão. Observar aquela exuberância vivendo uma vida miserável devia constituir um aditivo de tortura. O céu foi mudando em cores com o passar das horas. Meus amigos se divertiam tomando banho e bebendo cerveja. Enquanto isso eu fumava, tomava algumas doses de vinho e observava. Começava a me sentir como um personagem de uma das histórias de Edgar Alan Poe. Um sujeito incauto diante de uma manifestação ameaçadora e incompreensível para mim. A noite estava vindo e isso me deixava nervoso. Pensei até em beber mais para que a embriagues me fizesse dormir. Quando acordasse, já seria o dia de nossa partida. Mas achei que isso não constituía uma boa ideia. Era melhor ficar acordado e se possível perto dos meus amigos apesar de tudo. Mauro sentou-se ao meu lado todo molhado e me perguntou esse eu estava bem. Antes que eu respondesse ele começou a comentar sobre o frio que estava começando a sentir. Os outros vieram e ficamos falando novamente sobre a casa. Disse-lhes que tinha imaginado que tudo que todas as manifestações da noite passada eram o resultado das inúmeras vidas perdidas naquele lugar. Muito provavelmente as almas das pessoas escravizadas rondavam a fazenda. Não era assim que as propriedades ficavam assombradas? Mauro falou com ar de superioridade que a maioria das manifestações que os demais consideram sobrenaturais podem ser explicados pela ciência. Pedro informou que não dava muita bola para a parapsicologia e a conversa se tornou uma daqueles debates complexos do tempo de faculdade com o direito a alusão de livros, teorias e filmes. Acho que somente eu estava preocupado de verdade enquanto erguia os olhos ao redor experimentando terrores absurdos.
combinado. Eu e Pedro estávamos inclinados a partir, eu mais que ele. Os outros insistiam que era melhor ficar, até mesmo examinar aquilo mais de perto. Eles diziam compreender que eu era o mais assustado, pois vira alguma coisa, mas que eu ficasse despreocupado, iriam me proteger. Nunca tinha ficado desconfortável no meio deles, dos dois casais, um único solteiro do grupo cujo o fim do namoro meses antes me deixara arrasado e choroso nos ombros deles. Mas agora, único solteiro, gay, abandonado depois de um relacionamento de dois anos e terrivelmente assustado, me senti muito mal. Parecia que me tornara o peso para o grupo. Foi então que, sobretudo para não parecer covarde e estraga prazeres, cedi aos apelos e ficamos. Passamos a manhã preparando o almoço, bebendo e experimentando mais um pouco de erva. Andamos pela casa e ao redor dela. Priscila e Mauro chamaram nossas atenções ao encontrar alguns tijolos marcados nos fundos da casa. Ali, estavam os famigerados tijolos com suásticas em uma parte que não tinha reboco. Eu examinei de perto e pelo relevo e textura dava pra acreditar que eram reais. Eu não podia afirmar aquilo cem por cento, mas era algo bem plausível. Adiamos o passeio da tarde – indicado pelo locatário da casa - e ficamos conversando, tecendo teorias sobre as assombrações da noite passada. O que mais nos deixava transtornados era o fato de ninguém ter mencionado atividades sobrenaturais. Havíamos tanto ouvido falar da propriedade, boatos exagerados, mas estranhamente – e eu acho que adorariam fazê-lo – ninguém falou de assombrações. Pensamos em contatar o caseiro, mas logo desistimos disso. Meus amigos e eu estávamos atrás da residência, ao ar livre, ocupando mesas e cadeiras próximas a uma piscina rústica. Após os limites da propriedade, a imensidão de matas exuberantes. Por ali havia uma trilha curta que conduzia a um rio e cachoeira. Observando aquela paisagem, fui tomado de uma tristeza imensa. Apesar de toda a beleza do lugar, não conseguia deixar de imaginar como aquilo tudo soava ainda mais pesaroso para as pessoas que viviam ali trabalhando num regime de escravidão. Observar aquela exuberância vivendo uma vida miserável devia constituir um aditivo de tortura. O céu foi mudando em cores com o passar das horas. Meus amigos se divertiam tomando banho e bebendo cerveja. Enquanto isso eu fumava, tomava algumas doses de vinho e observava. Começava a me sentir como um personagem de uma das histórias de Edgar Alan Poe. Um sujeito incauto diante de uma manifestação ameaçadora e incompreensível para mim. A noite estava vindo e isso me deixava nervoso. Pensei até em beber mais para que a embriagues me fizesse dormir. Quando acordasse, já seria o dia de nossa partida. Mas achei que isso não constituía uma boa ideia. Era melhor ficar acordado e se possível perto dos meus amigos apesar de tudo. Mauro sentou-se ao meu lado todo molhado e me perguntou esse eu estava bem. Antes que eu respondesse ele começou a comentar sobre o frio que estava começando a sentir. Os outros vieram e ficamos falando novamente sobre a casa. Disse-lhes que tinha imaginado que tudo que todas as manifestações da noite passada eram o resultado das inúmeras vidas perdidas naquele lugar. Muito provavelmente as almas das pessoas escravizadas rondavam a fazenda. Não era assim que as propriedades ficavam assombradas? Mauro falou com ar de superioridade que a maioria das manifestações que os demais consideram sobrenaturais podem ser explicados pela ciência. Pedro informou que não dava muita bola para a parapsicologia e a conversa se tornou uma daqueles debates complexos do tempo de faculdade com o direito a alusão de livros, teorias e filmes. Acho que somente eu estava preocupado de verdade enquanto erguia os olhos ao redor experimentando terrores absurdos.

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