Foi só o vinho
combinado à erva surtir efeito, que todo mundo resolveu ir dormir. Pretendíamos
aproveitar o outro dia, então fomos descansar. Fomos pra cama após um jantar improvisado com conservas, queijo, presunto e pães. Lembro que deitei e demorei a dormir pensando nas inúmeras coisas que tinham acontecido naquela casa. Quantas vidas, sonhos, pompa e circunstância não teriam tido vez naquele lugar! Pensei no célebre Monteiro Lobato, amigo da família, que diziam ter se hospedado ali. Não sabia se isso era fato, mas recordava bem as polêmicas que diziam que o autor de Sítio do pica pau amarelo era um entusiasta da eugenia e um racista empedernido. Bem, notícias falsas não eram um privilégio exclusivo de nosso tempo, assim como o preconceito. Dormi e sonhei com paisagens campestres e grupos com chapéus pontudos em imagens de redes sociais. Acordei no meio da noite com barulhos no quarto. Pensei que Pedro ou Mauro estivessem ali fazendo alguma brincadeira. Chamei por um e outro, mas não obtive resposta. A penumbra no quarto não era total, de modo que eu podia ver as telhas e as divisões claras entre elas, naquele teto alto. Estava me distraindo quando novas perturbações me chamaram a atenção. Em dado momento vi diante de mim um vulto escuro de forma humana. “Pedro, Mauro? Chamei, mas não houve resposta. O vulto se ergueu sobre mim e foi flutuando até o teto. O pavor que tomou conta de mim nesse momento foi uma das coisas mais reais que já experimentei na vida. É um fato tão absoluto em minha existência que jamais cogitei estar sonhando ou em qualquer outro estado de consciência indefinida. Meu coração acelerou e um calafrio me dominou. Aquele espectro ficou acima de mim um tempo, se contorceu, emitiu uma espécie de urro e desapareceu. Senti me paralisado de medo e comecei a chamar pelos amigos. Ouvi quando Elen disse: “É o Junior...” Em seguida Pedro falou comigo. Levantei, tateei em busca do celular. Liguei a lanterna do aparelho e fui trôpego até os amigos. Encontrei-os no quarto contiguo ao meu. Pedro disse ter ouvido algo. Eu disse: “Eu vi algo!” Contei para eles o que ocorrera. Chamamos por Mauro e Priscila. Não houve resposta. Elen informou que eles tinham tomado muito vinho. Ficamos conversando. Eu reconhecia que meus amigos gostariam de ter alguma privacidade, mas eu não era capaz de ficar sozinho em outro cômodo. Após um tempo curto, ouvimos passos no corredor. Chamamos por nossos amigos, mas não tivemos resposta. E então o festival de perturbações tomou lugar naquela propriedade. Ouvimos vozes e barulhos como se um razoável número de pessoas estivesse na casa. O tempo todo nos perguntávamos o que era aquilo. A preocupação com nossos outros amigos era genuína, mas ninguém tinha coragem de ir até onde eles estavam. Eu me sentia como se tivesse sete anos de idade novamente, sozinho em minha cama, após acordar de um pesadelo e não ter coragem alguma. Em um momento reconhecemos a voz de Mauro e Priscila e chamamos por eles. Perguntaram se a gente estava fazendo aquele barulho. Num gesto impulsivo, fomos todos ao encontro deles. Nos juntamos no mesmo cômodo e ficamos ouvindo as perturbações até o dia amanhecer. Quando a luz do dia invadiu o ambiente, andamos pela casa com cuidado. Os barulhos cada vez mais distantes até cessar. Fomos para cozinha conversar, comer e decidir o que fazer dali em diante. Uma coisa a gente era de comum acordo. Tinha algo estranho naquele lugar além de histórias de patriarcas raivosos e simpatia por conceitos raciais.
aproveitar o outro dia, então fomos descansar. Fomos pra cama após um jantar improvisado com conservas, queijo, presunto e pães. Lembro que deitei e demorei a dormir pensando nas inúmeras coisas que tinham acontecido naquela casa. Quantas vidas, sonhos, pompa e circunstância não teriam tido vez naquele lugar! Pensei no célebre Monteiro Lobato, amigo da família, que diziam ter se hospedado ali. Não sabia se isso era fato, mas recordava bem as polêmicas que diziam que o autor de Sítio do pica pau amarelo era um entusiasta da eugenia e um racista empedernido. Bem, notícias falsas não eram um privilégio exclusivo de nosso tempo, assim como o preconceito. Dormi e sonhei com paisagens campestres e grupos com chapéus pontudos em imagens de redes sociais. Acordei no meio da noite com barulhos no quarto. Pensei que Pedro ou Mauro estivessem ali fazendo alguma brincadeira. Chamei por um e outro, mas não obtive resposta. A penumbra no quarto não era total, de modo que eu podia ver as telhas e as divisões claras entre elas, naquele teto alto. Estava me distraindo quando novas perturbações me chamaram a atenção. Em dado momento vi diante de mim um vulto escuro de forma humana. “Pedro, Mauro? Chamei, mas não houve resposta. O vulto se ergueu sobre mim e foi flutuando até o teto. O pavor que tomou conta de mim nesse momento foi uma das coisas mais reais que já experimentei na vida. É um fato tão absoluto em minha existência que jamais cogitei estar sonhando ou em qualquer outro estado de consciência indefinida. Meu coração acelerou e um calafrio me dominou. Aquele espectro ficou acima de mim um tempo, se contorceu, emitiu uma espécie de urro e desapareceu. Senti me paralisado de medo e comecei a chamar pelos amigos. Ouvi quando Elen disse: “É o Junior...” Em seguida Pedro falou comigo. Levantei, tateei em busca do celular. Liguei a lanterna do aparelho e fui trôpego até os amigos. Encontrei-os no quarto contiguo ao meu. Pedro disse ter ouvido algo. Eu disse: “Eu vi algo!” Contei para eles o que ocorrera. Chamamos por Mauro e Priscila. Não houve resposta. Elen informou que eles tinham tomado muito vinho. Ficamos conversando. Eu reconhecia que meus amigos gostariam de ter alguma privacidade, mas eu não era capaz de ficar sozinho em outro cômodo. Após um tempo curto, ouvimos passos no corredor. Chamamos por nossos amigos, mas não tivemos resposta. E então o festival de perturbações tomou lugar naquela propriedade. Ouvimos vozes e barulhos como se um razoável número de pessoas estivesse na casa. O tempo todo nos perguntávamos o que era aquilo. A preocupação com nossos outros amigos era genuína, mas ninguém tinha coragem de ir até onde eles estavam. Eu me sentia como se tivesse sete anos de idade novamente, sozinho em minha cama, após acordar de um pesadelo e não ter coragem alguma. Em um momento reconhecemos a voz de Mauro e Priscila e chamamos por eles. Perguntaram se a gente estava fazendo aquele barulho. Num gesto impulsivo, fomos todos ao encontro deles. Nos juntamos no mesmo cômodo e ficamos ouvindo as perturbações até o dia amanhecer. Quando a luz do dia invadiu o ambiente, andamos pela casa com cuidado. Os barulhos cada vez mais distantes até cessar. Fomos para cozinha conversar, comer e decidir o que fazer dali em diante. Uma coisa a gente era de comum acordo. Tinha algo estranho naquele lugar além de histórias de patriarcas raivosos e simpatia por conceitos raciais.

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