Artur D’Onofrio começou a ter um pequeno sucesso como
escritor e isso lhe trouxe bastante
alegria e excitação. Era um homem de 54
anos e mesmo gostando de lecionar literatura na universidade, sentia que
faltava algo. E percebia isso ainda mais quando falava empolgado de livros que
admirava intensamente. Apesar do interesse pela literatura universal com temas
mais filosóficos, desejava escrever romances policiais e de mistério. Ao
completar 50 anos pensou que era agora ou nunca. Tinha passado mais da metade
da vida escrevendo artigos e resenhas, agora era a vez da ficção. Um ano depois
publicou seu primeiro romance: Os crimes da rua do hospital. No outro ano veio
mais um. Espécie de continuação do primeiro, O detive Villa e os novos
assassinatos. Escreveu outro sobre uma mansão assombrada e, mesmo diante de um
tema bem conhecido, inovou e despertou interesse de leitores. Seus livros
anteriores foram descobertos e ele passou a gozar de algum prestígio. Numa
manhã de sábado, em seu escritório diante do computador, tomava notas sobre um
possível novo romance. Estava absorto na pesquisa quando viu algo surgir na sua
visão periférica do lado direito, embaixo. Olhou e tomou o maior susto de sua
vida. Um anão carrancudo, de pele esverdeada, terrivelmente assustador estava
diante dele. Assustado, levantou-se repentinamente, o coração acelerado, o
grito preso na garganta. O anão o olhou com desprezo, balançou negativamente a
cabeça, deu meia volta e saiu em direção ao corredor. Artur respirou fundo. A
cabeça fervilhava numa sucessão de ideias e suposições sobre quem era aquela
criatura. Mesmo temeroso, tratou de segui-lo. Com cautela e passos lentos foi
até o corredor, mas não viu mais o anão. Passou a manhã procurando o sujeito,
se certificando que tinha trancado as portas e que o visitante estranho não
tinha por onde ter saído. Depois disso viu novamente o anão dois dias depois na
sua sala de aula enquanto corrigia provas. Em seguida o encontrou no jardim de
sua casa, mas dessa vez estava acompanhado de um semelhante igualmente feio e
de expressão aborrecida. Daquele dia em diante percebeu que cada vez mais o número
de anões aumentava. Pela manhã via quatro ou cindo deles na sala de sua casa, à
noite, na sua garagem via oito ou mais. Artur logo percebeu que somente ele podia
ver tais criaturas. Em uma ocasião, na sala de professores da universidade, viu
quatro deles sentados no sofá, encarando-o indignados. Não disse nada a ninguém
e ficou muito aliviado quando sumiram. Numa rápida pesquisa na internet sobre
seres do tipo, Artur descobriu que estava diante de prováveis goblins e não
simples anões. No início as criaturas se limitavam a encara-lo com expressão
mau-humorada, mas um dia viu que um deles derrubou um abajur, começou a rir com
os outros e em seguida sumiram. Desse dia em diante começaram as travessuras.
Os goblins quebravam suas coisas, jogavam água nele quando surgiam no banheiro
da universidade. A coisa começava a ficar insuportável. Em casa, com um pedaço
de pau tentou atingir os invasores, mas foi rechaçado e levou uma surra de
sapatos. No outro dia no trabalho teve que inventar uma história para
justificar os hematomas. Aquilo começou a tirar-lhe o sono, deixando-o com a
aparência desgrenhada, atrapalhando no trabalho. Um dia, se viu cercado pelos
goblins com a expressão de sempre. Eram muitos, uns vinte, no seu quarto,
acotovelando-se ao redor de sua cama. Cada um mais feio e irritado que o outro.
Artur sentiu-se desesperado, com vontade de chorar. – Que vocês querem de mim?
– gritou e rompeu em lágrimas. Foi então que um deles falou: - Só queremos que
escreva uma história sobre nós. – Artur se levantou, tentou se recompor. – Só
isso? – Foi até o escritório. Os goblins o acompanharam. Ligou o computador,
abriu o editor de texto. Escreveu: “UMA HISTÓRIA DE GOBLINS. Artur D’Onofrio
começou a fazer sucesso como escritor e isso lhe trouxe bastante alegria e
excitação. Era um homem de 54 anos...” Então um a um os monstrinhos foram
sumindo.
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