Acredito que Marcelo nunca vendeu um pão de
queijo na vida. Nenhum sequer, apesar do apelido.
O homem ganhava a vida
produzindo e vendendo coxinhas, pasteis, roscas, mas nunca o famoso pão de
queijo. Eu lembro bem. E meu pai me confirmou isso tempos depois, sentado em
sua rede, contemplando as brumas da catarata, com seus oitenta anos. Relembrou
esse fato, o apelido que não fazia muito sentido e do que aconteceu com ele.
Foi um desses encontros raros em que reunimos toda a família para passar um
final de semana sob o mesmo teto. Conversa ia e vinha e eu, meu irmão e irmã
nos lembramos quase ao mesmo tempo de Marcelo pão de queijo, seus salgados e
tudo que aconteceu. Marcelo era uma figura querida no nosso bairro. E não
apenas por causa de seus salgados de boa qualidade. Era um homem rechonchudo de
meia idade, sem esposa e sem filhos. Vivia sozinho numa casa simples que, além
de domicílio, era sua pequena padaria. Ele me parecia bastante solitário,
embora tivesse um ar alegre e descontraído. Abastecia parte do comércio local
com sua mercadoria e saía de bicicleta para vender o resto. A molecada da rua,
inclusive eu e meus irmãos, o interceptava com algazarra para comprar seus
salgados. Depois de atender a gente, ele seguia seu caminho e só voltava depois
que tivesse vendido tudo. Embora falasse com todos, principalmente com as
crianças, era reservado, só saía para trabalhar e não se embriagava aos sábados
como os outros homens da nossa rua. As línguas apressadas especulavam que
Marcelo pão de queijo era homossexual. E isso era coisa estranha e terrível
para uma comunidade atrasada e preconceituosa como aquela em que eu vivia no
início dos anos sessenta. Como o fato não se confirmasse, a vida seguia
tranquila sem que ele sofresse alguma discriminação mais direta. Mas aí então
veio verão de 1961. Uma época mais quente que o habitual. Foi nesse tempo que
desapareceu o primeiro menino. Luís Wagner, um moleque de sete anos. Logo
depois, outro garoto de cinco ou sei anos que não recordo o nome depois desses
anos todos. O bairro ficou apavorado. Eu lembro de me sentar na calçada à noite
– nós tínhamos esse habito juntos com os adultos – com meu irmão e amigos e
falar sobre isso e outras histórias escabrosas até nossas mães nos mandar
entrar. O que passou a acontecer mais cedo devido aos desaparecimentos. Deitado
na minha cama eu ficava pensando no destino dos garotos e nos outros contos
pavorosos que tinha ouvido. Óbvio que alguns eram exagerados e até impossíveis,
mas eu não sabia diferencia-los. Para minha mente de criança, a história da
mulher que virava serpente que estava presa num túmulo de cemitério, era tão
possível quando um raptor de crianças. A busca pelos garotos continuou, mas então,
logo um terceiro sumiu. Este tinha nove anos o que fez com que os medos
prosperassem ainda mais. A polícia começava a acreditar que um maníaco,
obcecado por garotos estava por detrás disso. Uma espécie de perfil – embora
não tivessem usado esse termo na época – foi traçado. O homem devia ser
solitário, ter entre trinta e quarenta e poucos anos, e provavelmente fora
preso por abusar de garotos em alguma época de sua vida. Os olhos se voltaram
para Marcelo Pão de queijo. A coisa pesou para seu lado ainda mais quando
descobriram que ele fora preso quando era jovem. Começaram os rumores e
suspeitas sobre ele. Entretanto, a coisa complicou mesmo quando começaram a
sentir um cheiro estranho vindo da casa do vendedor de salgados. Era um cheiro
de carne podre e a polícia foi chamada.

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