segunda-feira, 10 de junho de 2019

A TERRÍVEL HISTÓRIA DE MARCELO PÃO DE QUEIJO parte 1 (Conto de terror)

Acredito que Marcelo nunca vendeu um pão de queijo na vida. Nenhum sequer, apesar do apelido.
O homem ganhava a vida produzindo e vendendo coxinhas, pasteis, roscas, mas nunca o famoso pão de queijo. Eu lembro bem. E meu pai me confirmou isso tempos depois, sentado em sua rede, contemplando as brumas da catarata, com seus oitenta anos. Relembrou esse fato, o apelido que não fazia muito sentido e do que aconteceu com ele. Foi um desses encontros raros em que reunimos toda a família para passar um final de semana sob o mesmo teto. Conversa ia e vinha e eu, meu irmão e irmã nos lembramos quase ao mesmo tempo de Marcelo pão de queijo, seus salgados e tudo que aconteceu. Marcelo era uma figura querida no nosso bairro. E não apenas por causa de seus salgados de boa qualidade. Era um homem rechonchudo de meia idade, sem esposa e sem filhos. Vivia sozinho numa casa simples que, além de domicílio, era sua pequena padaria. Ele me parecia bastante solitário, embora tivesse um ar alegre e descontraído. Abastecia parte do comércio local com sua mercadoria e saía de bicicleta para vender o resto. A molecada da rua, inclusive eu e meus irmãos, o interceptava com algazarra para comprar seus salgados. Depois de atender a gente, ele seguia seu caminho e só voltava depois que tivesse vendido tudo. Embora falasse com todos, principalmente com as crianças, era reservado, só saía para trabalhar e não se embriagava aos sábados como os outros homens da nossa rua. As línguas apressadas especulavam que Marcelo pão de queijo era homossexual. E isso era coisa estranha e terrível para uma comunidade atrasada e preconceituosa como aquela em que eu vivia no início dos anos sessenta. Como o fato não se confirmasse, a vida seguia tranquila sem que ele sofresse alguma discriminação mais direta. Mas aí então veio verão de 1961. Uma época mais quente que o habitual. Foi nesse tempo que desapareceu o primeiro menino. Luís Wagner, um moleque de sete anos. Logo depois, outro garoto de cinco ou sei anos que não recordo o nome depois desses anos todos. O bairro ficou apavorado. Eu lembro de me sentar na calçada à noite – nós tínhamos esse habito juntos com os adultos – com meu irmão e amigos e falar sobre isso e outras histórias escabrosas até nossas mães nos mandar entrar. O que passou a acontecer mais cedo devido aos desaparecimentos. Deitado na minha cama eu ficava pensando no destino dos garotos e nos outros contos pavorosos que tinha ouvido. Óbvio que alguns eram exagerados e até impossíveis, mas eu não sabia diferencia-los. Para minha mente de criança, a história da mulher que virava serpente que estava presa num túmulo de cemitério, era tão possível quando um raptor de crianças. A busca pelos garotos continuou, mas então, logo um terceiro sumiu. Este tinha nove anos o que fez com que os medos prosperassem ainda mais. A polícia começava a acreditar que um maníaco, obcecado por garotos estava por detrás disso. Uma espécie de perfil – embora não tivessem usado esse termo na época – foi traçado. O homem devia ser solitário, ter entre trinta e quarenta e poucos anos, e provavelmente fora preso por abusar de garotos em alguma época de sua vida. Os olhos se voltaram para Marcelo Pão de queijo. A coisa pesou para seu lado ainda mais quando descobriram que ele fora preso quando era jovem. Começaram os rumores e suspeitas sobre ele. Entretanto, a coisa complicou mesmo quando começaram a sentir um cheiro estranho vindo da casa do vendedor de salgados. Era um cheiro de carne podre e a polícia foi chamada. 

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