Os
homens tinham chegado no meio da noite, arrebentado sua porta e o arrancado da
cama? Ou
talvez ele estivesse voltando de algum lugar, fora atacado por dois
encapuzados, colocado à força num banco detrás de um veículo que arrancou em
alta velocidade. Podia muito bem ter entrado num bar, tomado uma bebida e
desmaiado. Depois era fácil ser levado. Todas essas possibilidades passaram
pela sua mente conturbada. Vivera pelo menos uma delas... Ou eram apenas
pesadelos? Invenções de sua cabeça para explicar como viera parar ali. E quem era
ele? Tinha consciência de si, mas era estranho como a imagem de um
quebra-cabeça que se pode reconhecer, mas que falta um pedaço. Ele acordara, ao
que tudo indicava, num cárcere privado. Obvio que estava ali contra sua vontade.
A mente quase em branco. Acordara e dormira e tudo se misturava numa névoa de
sonho em que qualquer coisa podia ser a realidade de como chegara ali. Foi
melhorando, começando a lembrar. Mas ainda não sabia quem o trouxera, nem como,
muito menos onde estava. Podia ser um quarto subterrâneo numa casa ou uma
prisão na bastilha desafiando tempo e espaço. A mente sem certezas, exceto a de
que estava detido. Isso não era sonho. Dores de cabeça, sangue seco no cabelo, o
cheiro de mofo, a visão que não estava mais desfocada, a forte luz, denunciavam
a realidade. Era um cubículo de dois por quatro metros. Um portão de ferro
estava diante dele sem trancas à vista. O que indicava que o mesmo só podia ser
aberto por fora. Sentou-se num canto e ficou pensando nas três possibilidades
com as quais tinha sonhado. Sonhado? Logo se convenceu de que o mais importante
era saber quem o trouxera ali, o porquê, e se havia chances de ser solto.
Distraía-se quando viu algo surgir no portão ou através dele. Era um homem alto
e parecia não estar usando roupas. Apesar do recinto estar completamente
iluminado, o homem parecia estar na penumbra. Ele deu passos lentos, se
afastando da entrada e estranhamente pareceu estar sob a luz. Seu corpo se
iluminou e ele realmente estava sem roupas. Da sua cabeça e ombros escorriam
sangue, estava cabisbaixo e chorava. E então sumiu. O preso se encolheu num
canto, num gesto instintivo. Além de estar encarcerado, o colocaram num lugar
assombrado! Começou a ficar desesperado, porém estranhamente as coisas foram
ficando mais claras. A vida se tornara perigosa. Ali e mesmo lá fora! Continuou
pensando e então verdadeiramente lembrou de quem ele era. Estava ali sem saber
há quanto tempo, mas só naquele último instante teve consciência de si mesmo.
De quem era de fato. Antes se sentia apenas vivo, mas sem identidade. Sensação
mais estranha do mundo. Lembrou seu nome, onde morava, o que fazia... Um grito
desesperado lhe interrompeu os pensamentos. Outros lamentos se seguiram e mais
espectros pareceram atravessar o portão de seu cárcere e desaparecer.
Estranhamente o pavor o fez lembrar de mais coisas. Recordou como fora
capturado. Tinham-no perseguido de carro, cortado sua frente, dois sujeitos
desceram armados, arrancaram-no do veículo e bateram nele até que desmaiasse.
As outras 3 situações com as quais sonhara tinham acontecido com amigos seus,
lembrou. Os gritos continuaram, assim como o desfile interminável de mortos. Em
um momento ouviu sons no portão. Dois homens entraram. Não disseram nada.
Algemaram-no e o levaram para outra sala. Havias vultos e espectros por todos
os lados, almas de condenados. Os sujeitos ao seu redor eram demônios. E
exultaram muito quando lhe deram choques elétricos, pancadas e quebraram-lhe
ambas as pernas. Iniciaram um interrogatório, mas o homem não respondeu mais
nada, pois voltou a perder a memória.
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