Eu
mudei para o bairro já sabendo. Que era um lugar violento. Que os confrontos
entre policiais,
bandidos e disputas por territórios resultavam em banhos de
sangue. Vinganças terríveis nas esquinas e bares que rendiam pavorosos
espetáculos televisivos. Mas, vindo de um lugar igualmente perigoso, eu não me
importei muito. Sabia bem que possuía a manha de driblar as ameaças urbanas.
Afinal, quem nasce e cresce em alguns bairros da periferia da grande São Paulo
bem sabe que como proceder. O que me atraiu no lugar? O preço e a qualidade!
Uma excelente casa com aluguel excelente. O corretor confessou que isso se dava
porque a residência tinha fama de assombrada. O que considerava uma bobagem,
visto que muitas casas no bairro eram consideradas assombradas. “Dizem que nos
EUA, é obrigado informar ao comprador ou locatário se a casa tem assombração,
se morreu alguém.” O homem falou. “Não sei nada de assombração, nem de morte,
só sei que são moradias antigas cheias de histórias, inclusive histórias
felizes! ” Concluiu. “Mas isso não chama a atenção, não é?” Falei em tom de
cumplicidade. Realmente aquilo não me preocupava. Nunca tinha ouvido falar de alguém
que tivesse morrido vítima de uma casa assombrada. Não que duvidasse de manifestações
fantasmagóricas e nem sentisse medo nenhum, mas me assustava mais não ter onde
morar. Mudei para casa numa manhã de sábado e no final da tarde fiquei de papo
com os amigos que tinham me ajudado. Tomamos cerveja até umas dez da noite.
Momento em que eu fiquei bêbado e insuportável, falando da minha ex e da falta
que eu sentia dela. Depois disso, as semanas seguiram tranquilas na minha nova
moradia. Era mais perto do meu trabalho e eu só precisei configurar meu trajeto
pelos horários e evitar certos caminhos escuros. Mas então veio a noite em que
eu acordei com barulhos estranhos. Eram gemidos abafados, ordens e lamurias
indistintas. Fiquei absolutamente parado na minha cama escutando aquilo,
petrificado de pavor e tentando entender o que se passava. Era muito fácil
desprezar e rechaçar as assombrações durante o dia, mas a noite a coisa mudava
de figura. Permaneci sob as cobertas me sentindo um garoto, pedindo a Deus que
aqueles sons pavorosos cessassem. Vieram então o barulho de batidas de porta e
em seguida um súbito silêncio. Devo ter ficado acordado ainda alguns minutos,
certificando-me da calmaria até finalmente ficar em paz e cair no sono. No
outro dia, ao sair de casa, me deparei com viaturas de polícia, vans de
reportagens e uma multidão de curiosos. Fui e soube que houvera um crime na
casa vizinha. Uma família inteira morta: Marido, esposa e duas filhas
assassinados. Havia boatos de que a mulher e as garotas haviam sido estupradas,
depois executadas diante do homem, morto por último por estrangulamento. Uma
vingança por supostas delações. Eu não tinha escutado assombração alguma, mas
terrores reais perpetrados por demônios humanos. Tratei de me mudar. Pois a
noite era difícil dormir. O tempo todo eu escutava, não na casa, nem no
vizinho, mas em minha cabeça, aqueles sons infinitamente horripilantes
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