Ele lembrava do medo e da miséria desde que era muito novo.
Do quintal escuro, da fome,
da favela onde moravam com o chão de terra batida,
das ruas estreitas com histórias de violência. De acordar tarde da noite, de
não ter coragem de ir no quintal, de fazer xixi na rua, de frente ao seu barraco
e olhar para as outras vielas. Do vai e vem dos pais em suas brigas envolvendo
sempre álcool. E ele recordava bem de todas as privações, dos fantasmas que se
escondiam nos fundos do quintal de sua casa e dos outros quintais, divisões que
não tão eram claras. Compartilhavam assim muitas coisas. A visão das mulheres
dando banho nos filhos, limpando seus traseiros... A nudez compartilhada em
várias ocasiões, jovens e velhos. Teve até uma vez em que viu um homem e uma
mulher nus, abraçados num movimento até então desconhecido para ele. Algo de
terrível aconteceu por causa daquilo depois. O vizinho fora enganado e por isso
deixou a mulher que se matou enforcada, arrependida da traição com o irmão do
marido. E assim continuou a sucessão de medos e miséria. A violência marcou sua
infância, as terríveis privações nunca lhe deixaram esquecer. Viu muitas
pessoas mortas na favela. Na esquina, caídas sobre poças de sangue, enforcadas
como a vizinha, esfaqueadas no boteco do Moreira, emboscadas na constante luta
entre os bandidos. E isso produzia cada vez mais fantasmas, vultos que cruzavam
por ele em grande velocidade. À noite, juntos com os irmãos, se reuniam para
falar dessas assombrações, dizer o que tinham visto, comparar aparições. A avó
que tinha um terreiro de umbanda lhe explicava as coisas, lhe dizia para ter
cuidado, respeito. Mas um dia ela morreu e ele ficou sem respostas e
advertências. Em uma ocasião, aos doze anos, foi currado por uns moleques da
rua debaixo. Eles o tinham levado para um terreno com árvores e lixo, com a
desculpa de caçar passarinhos. E fizeram aquilo ávidos e sorridentes. Nunca se
sentiu tão mal na vida. E assim o tempo
foi passando. O medo se transformou em mais medo e depois horror, a miséria em
ódios invencíveis. Aprendeu a ser um predador, a revidar. Ficou maravilhado ao
descobrir sua força. Como os irmãos mais velhos, também ficou alto e
corpulento. Espantou desafetos, brigou e demonstrou não ter medo. Um dia xingou
as almas e aparições que encontrava no quintal. Deixou de lado um pouco os
serviços de servente e fez roubos, assaltos. Preso, apanhou, fugiu, lutou e foi
perseguido. Desenvolveu ainda mais o gosto por menininhos. Recebeu favores
deles de graça, pagos. Voltou-se para práticas ocultistas, contra todas as
advertências da avó, pois queria poder além de qualquer coisa. Pretendia
enfrentar os horrores sendo ele próprio o medo e afugentar a pobreza passando
por cima de tudo que ficasse diante dele. Falou de suas visões desde criança, o
velho disse-lhe que era médium de berço, devia desenvolver entendimento e poder.
E assim foi feito. Ficou diante das entidades, fez negociações que incluíam
sangue e velas. Acercou-se de asseclas, um grupo depravado e poderoso. Tomou as
coisas de seu interesse, inclusive os corpos de jovens imberbes. Jamais
esqueceu os medos e as misérias, pois as transformara em outras coisas. E a sua
vida continua... É uma história que ainda não terminou, pois agora faz o pior,
matando e dissecando crianças, falando com entidades e tentando acumular
riquezas. Tudo isso o faz com imposição de mãos de ferro e ajudas demoníacas
que se alimentam do medo e das misérias.
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