Alguma
coisa era assombrada... Ou o bairro ou sua casa! Ele pensou. Estava certo
disso. Vivia ali há
apenas duas semanas, mas essa cogitação era fato.
Assombrações! Naquela residência ou no bairro todo. Tinha falado para a irmã,
mas ela não acreditou. Jonas não se achava exagerado e muito menos
supersticioso, mas tudo tinha limite. Ouvia e via coisas terríveis naquele
lugar. Não queria vislumbrar mundos sobrenaturais, não queria acreditar em
outras realidades, não se importava com daquilo, entretanto não podia negar a realidade.
Todas aquelas coisas absurdas estavam diante dele. No começo fora muito
aterrador. Como na vez em que ouviu passos no corredor, passos pesados, muito
diferente da maneira que a irmã caminhava. Foi olhar. Levou o maior susto da
vida. Uma mulher alta, velha e horrível o contemplava perto das escadas. Tinha
asas de borboleta, pura imagem oriunda de um quadro de Dali. Ou seria um quadro
do Bosch? Não importava. Ele duvidou dos próprios olhos e esperou que aquilo
sumisse, mas não o fez. A velha alada veio em sua direção, ele fechou a porta
do quarto e correu até a cama como uma criança assustada. Os passos continuaram
o resto da noite, mas ele não teve mais coragem de abrir a porta para espiar.
Ficou pensando que era algo de sua mente, que estava impressionado como dizia
sua mãe se referindo ao medo que nós mesmos criamos. Depois vieram os rostos
horríveis que surgiam nos cantos e que só tinham boca e dentes pontiagudos.
Muitos outros barulhos e o terrível desfile de animais com rostos humanos que
se estendiam da sua sala de estar até a rua. Que imagem mais tenebrosa e
bizarra. Estava vendo TV, tranquilo quando a fila de bestas meio humanos
invadiu sua casa. Por uma hora completa elas ficaram ali, entrando e saindo, o
observando com expressão zangada. Não podia ignorar mais aquilo. Lembrou da
frase de Shakespeare em Hamlet: Há mais coisas entres o céu e a terra do que
sonha nossa vã filosofia! Não era exagerado, muito menos supersticioso, mas era
hora de admitir que estava cercado de assombrações, terrores vindo de outro
mundo. Numa manhã falou para a irmã, mas não diretamente, apenas perguntou:
Você não acha nada estranho nessa casa? Ela disse que só ouvia muitos barulhos
estranhos à noite, pouco antes de dormir, mas tudo bem, era uma casa velha.
Jonas compreendeu. Ela tomava remédios pesados para dormir, só ouvia o início
da festa dos fantasmas. Era uma mulher de meia idade que nunca tivera marido e
filhos e amarga por isso. Nem todo mundo podia ser como ele, solteiro e feliz.
Ele era o mais velho de cinco irmãos, resignado com tudo, ela, a caçula,
solitária e zangada por morar com o irmão. Ele entendia, todavia, não
concordava. Resolveu não falar mais sobre as assombrações. Descobriria sozinho
as razões daquilo. Se os fantasmas eram oriundos da casa ou do bairro. Arranjou
uns livros sobre assombração e se debruçou sobre eles. Colocou uns crucifixos
na parede e acendeu várias velas no seu quarto. Achou que a irmã estivesse
protegida pelo sono profundo e não se preocupou mais. O problema foi que as
coisas se complicaram. A multidão de aparições aumentou e passou a não deixar
que ele dormisse. Batiam na porta do quarto a noite toda, enfiavam dedos
pontiagudos no formato de sombra por baixo da porta. Um dia, uma criatura
semelhante a um enorme rato pulou na cama junto com ele, tentou mordê-lo,
desesperado ele sacudiu o lençol que atingiu as velas sobre o criado mudo.
Começou um incêndio. Ele correu em direção à porta, mas se deparou com toda uma
nova infinidade de duendes, regressou, pegou uma barra de ferro para se
defender. O fogo foi aumentando e ele não tinha como sair, lutando contra
aquelas criaturas. A fumaça tomou conta do ambiente, ele bracejava para todos
os lados tentando acertar seus perseguidores, sair dali, mas foi perdendo as
forças e...
Quando deu por si, estava numa
ambulância, as portas abertas, podia ver um pouco de sua rua, a calçada...
luzes vermelhas? Um caminhão do corpo de bombeiros, curiosos... Sua irmã e uns
atendentes ao seu lado. Tá tudo bem agora, Jonas, fique calmo... Você engoliu
muita fumaça, ela falou. Ele tentou falar, mas não conseguiu, a garganta doía.
Ela explicou que o estrago tinha sido pouco, os bombeiros tinham chegado há
tempo. Ele finalmente conseguiu falar, disse que a culpa era das assombrações.
A irmã pediu que ele relaxasse. O atendeu colocou a máscara no rosto dele de
novo. O veículo se pôs em movimento. Tá tudo bem, moço, falou para o
socorrista. É que meu irmão tem esquizofrenia... Eu cuido dele há anos.

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