Era um bairro
estranho e obscuro, em uma cidade estranha e obscura. Fazia parte da região
metropolitana da capital e seu misto de campo, cidade litorânea e características
urbanas, lhe dava um ar único. Era um município enorme, de largos campos e
terrenos descampados entre as casas. Algo que proporcionava ruas desertas,
escuras e silenciosas demais. Parte da natureza exuberante era preservada entre
os conjuntos habitacionais, característica que produzia tanto bem-estar quanto
espanto. Havia industrias, mansões e incríveis resorts ao longo da enorme faixa
litorânea, sofisticação e simplicidade em um só lugar, fato que encantava muita
gente, mas a mim, só causava estranheza. O grande contraste tornava o lugar
estranho, sem identidade ou, talvez, bastante identificado com uma coisa
desproporcional e de muitas faces. Acabei indo morar no município por questões
profissionais e confesso que temi o lugar desde o primeiro dia. Minha esposa
tinha opinião semelhante à minha, mas sua natureza tranquila, certamente a
impedia de emitir juízos maiores. Preferiu dizer que a falta de agitação da
nossa nova moradia proporcionava tranquilidade para realizar seu ofício de
escrever. Outra coisa que me incomodava também era o caminho de volta. Vinha do
trabalho por volta das sete da noite e, já ao deixar a avenida e tomar a rua de
nossa casa, eu experimentava uma profunda melancolia. Havia até algo de belo no
caminho, confesso. Era uma rua de terra, cercada de árvores e casas de muros
altos com um cheiro adocicado de mato que, de dia era repleto de sons de
pássaros, e a noite dominada pelo som de cigarras e grilos. Havia até mesmo um
terreno com um pequeno córrego onde se podia ouvir ao longe, o coaxar de
batráquios. Mas todo esse clima bucólico não desfazia um espanto e tristeza
escondidos que eu não podia evitar. A coisa piorava ainda mais quando eu vinha
de transporte público, descia na avenida e seguia a pé pela rua. Em um dos
primeiros dias, tive a certeza de ver algo pavoroso: uma silhueta de homem que
caminhava à minha frente simplesmente sumiu. Eu andava devagar quando vi a
forma humana diante de mim uns quarenta metros. Obviamente que pensei se tratar
de um transeunte, mas, observando-o, vi-o se desvanecer diante dos meus olhos. Lembro
que meus pés pesaram no momento em que pensei em passar no local onde ele havia
sumido. Corri até em casa, temeroso, mesmo achando que pudesse ter sido apenas
vítima de um efeito ótico ou truque da mente. Não contei nada à minha esposa,
entretanto, acabamos por comentar sobre certo clima opressivo sempre presente
naquele lugar. Era uma espécie de tranquilidade abissal que devia ser comum em cemitérios
e lugares onde alguma desgraça tinha acontecido. Glória me falou de uma casa
assombrada que havia no seu bairro quando ela era criança. Dizia que havia mato
na calçada e até mesmo em parte da rua onde a residência se encontrava. Em dias
e noites silenciosas e tristes, se podia ver espectros nas janelas para quem
ousasse olhar. Ela me falou que a sensação que tinha diante da casa era semelhante
ao que ela sentia quando estava sozinha na nossa nova moradia. Perguntei se ela
tinha medo e ela disse que não o suficiente para que quisesse mudar. E repetia
que a maioria das nossas impressões era coisa da nossa cabeça. As coisas
continuaram reduzidas a estas impressões, pelo menos até dezembro quando,
semelhante ao espectro que vi na rua, coisas começaram a surgir e desaparecer diante
dos meus olhos. De início eram apenas a sensação de presenças e olhares que me
espreitavam, depois comecei a ver, pela visão periférica, rostos sombrios.
Também ouvia passos e barulhos inexplicáveis. Falei para Glória e ela se
surpreendeu. Disse que só tinha as mesmas sensações de antes. Porém uma noite, a
caminho de casa, recebi uma ligação dela querendo saber onde eu estava.
Respondi e ela pediu que eu me apressasse. Cheguei em casa e a encontrei
transtornada, dizendo que ouvira vozes, passos e que estava aterrorizada. Ao
saber do ocorrido, uma amiga de minha mulher, que dizia ser espirita veio até a
nossa casa e fez intervenções. Disse que descobrira que não só o bairro, mas a
cidade inteira tinha sido palco de coisas terríveis e que isso o deixava repleto
de espíritos errantes e sujeito a malassombros diversos. As coisas ficaram mais
tranquilas e em semanas ficamos tão longe das más impressões que resolvemos
construir uma piscina em nosso terreno lateral. Na noite em que as obras se
iniciaram, houve uma sucessão de espantos terríveis. Passos, cochichos e uma
sensação apavorante tomou conta de nossa casa a ponto de mal conseguirmos dormir.
Pela manhã, já nas primeiras luzes do dia, despertei de um cochilo com gritos
de minha esposa. Ela dissera que no nosso quarto, diante de seus olhos, surgira
um grupo de homens estranhos que tinham sumido quando ela gritou. Não fui
trabalhar naquela manhã e fiquei vendo os homens construindo a piscina, me
juntando a eles em profundo pavor, quando uma quantidade de esqueletos foi
encontrada sob nosso terreno. Veio a polícia e chegaram à conclusão que aquele
terreno fora lugar de uma chacina. Que os restos mortais estavam ali a uns
cinco ou seis anos. Minha esposa e eu concluímos ser aquela a razão das
assombrações, todavia uma semana depois, foram encontradas novas ossadas. Dessa
vez, havia a especulação de serem ossos de alguma população indígena. Seis indivíduos
jaziam a uma profundidade de dois metros. Indaguei se tratava-se de um cemitério
indígena. “Não”, me respondeu um dos legistas. Na verdade, se tratava de um
outro tipo de chacina, essa, com uns cem anos.

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