terça-feira, 16 de julho de 2019

ONDE OS PAVORES DORMEM (Conto de terror)

Era um bairro estranho e obscuro, em uma cidade estranha e obscura. Fazia parte da região
metropolitana da capital e seu misto de campo, cidade litorânea e características urbanas, lhe dava um ar único. Era um município enorme, de largos campos e terrenos descampados entre as casas. Algo que proporcionava ruas desertas, escuras e silenciosas demais. Parte da natureza exuberante era preservada entre os conjuntos habitacionais, característica que produzia tanto bem-estar quanto espanto. Havia industrias, mansões e incríveis resorts ao longo da enorme faixa litorânea, sofisticação e simplicidade em um só lugar, fato que encantava muita gente, mas a mim, só causava estranheza. O grande contraste tornava o lugar estranho, sem identidade ou, talvez, bastante identificado com uma coisa desproporcional e de muitas faces. Acabei indo morar no município por questões profissionais e confesso que temi o lugar desde o primeiro dia. Minha esposa tinha opinião semelhante à minha, mas sua natureza tranquila, certamente a impedia de emitir juízos maiores. Preferiu dizer que a falta de agitação da nossa nova moradia proporcionava tranquilidade para realizar seu ofício de escrever. Outra coisa que me incomodava também era o caminho de volta. Vinha do trabalho por volta das sete da noite e, já ao deixar a avenida e tomar a rua de nossa casa, eu experimentava uma profunda melancolia. Havia até algo de belo no caminho, confesso. Era uma rua de terra, cercada de árvores e casas de muros altos com um cheiro adocicado de mato que, de dia era repleto de sons de pássaros, e a noite dominada pelo som de cigarras e grilos. Havia até mesmo um terreno com um pequeno córrego onde se podia ouvir ao longe, o coaxar de batráquios. Mas todo esse clima bucólico não desfazia um espanto e tristeza escondidos que eu não podia evitar. A coisa piorava ainda mais quando eu vinha de transporte público, descia na avenida e seguia a pé pela rua. Em um dos primeiros dias, tive a certeza de ver algo pavoroso: uma silhueta de homem que caminhava à minha frente simplesmente sumiu. Eu andava devagar quando vi a forma humana diante de mim uns quarenta metros. Obviamente que pensei se tratar de um transeunte, mas, observando-o, vi-o se desvanecer diante dos meus olhos. Lembro que meus pés pesaram no momento em que pensei em passar no local onde ele havia sumido. Corri até em casa, temeroso, mesmo achando que pudesse ter sido apenas vítima de um efeito ótico ou truque da mente. Não contei nada à minha esposa, entretanto, acabamos por comentar sobre certo clima opressivo sempre presente naquele lugar. Era uma espécie de tranquilidade abissal que devia ser comum em cemitérios e lugares onde alguma desgraça tinha acontecido. Glória me falou de uma casa assombrada que havia no seu bairro quando ela era criança. Dizia que havia mato na calçada e até mesmo em parte da rua onde a residência se encontrava. Em dias e noites silenciosas e tristes, se podia ver espectros nas janelas para quem ousasse olhar. Ela me falou que a sensação que tinha diante da casa era semelhante ao que ela sentia quando estava sozinha na nossa nova moradia. Perguntei se ela tinha medo e ela disse que não o suficiente para que quisesse mudar. E repetia que a maioria das nossas impressões era coisa da nossa cabeça. As coisas continuaram reduzidas a estas impressões, pelo menos até dezembro quando, semelhante ao espectro que vi na rua, coisas começaram a surgir e desaparecer diante dos meus olhos. De início eram apenas a sensação de presenças e olhares que me espreitavam, depois comecei a ver, pela visão periférica, rostos sombrios. Também ouvia passos e barulhos inexplicáveis. Falei para Glória e ela se surpreendeu. Disse que só tinha as mesmas sensações de antes. Porém uma noite, a caminho de casa, recebi uma ligação dela querendo saber onde eu estava. Respondi e ela pediu que eu me apressasse. Cheguei em casa e a encontrei transtornada, dizendo que ouvira vozes, passos e que estava aterrorizada. Ao saber do ocorrido, uma amiga de minha mulher, que dizia ser espirita veio até a nossa casa e fez intervenções. Disse que descobrira que não só o bairro, mas a cidade inteira tinha sido palco de coisas terríveis e que isso o deixava repleto de espíritos errantes e sujeito a malassombros diversos. As coisas ficaram mais tranquilas e em semanas ficamos tão longe das más impressões que resolvemos construir uma piscina em nosso terreno lateral. Na noite em que as obras se iniciaram, houve uma sucessão de espantos terríveis. Passos, cochichos e uma sensação apavorante tomou conta de nossa casa a ponto de mal conseguirmos dormir. Pela manhã, já nas primeiras luzes do dia, despertei de um cochilo com gritos de minha esposa. Ela dissera que no nosso quarto, diante de seus olhos, surgira um grupo de homens estranhos que tinham sumido quando ela gritou. Não fui trabalhar naquela manhã e fiquei vendo os homens construindo a piscina, me juntando a eles em profundo pavor, quando uma quantidade de esqueletos foi encontrada sob nosso terreno. Veio a polícia e chegaram à conclusão que aquele terreno fora lugar de uma chacina. Que os restos mortais estavam ali a uns cinco ou seis anos. Minha esposa e eu concluímos ser aquela a razão das assombrações, todavia uma semana depois, foram encontradas novas ossadas. Dessa vez, havia a especulação de serem ossos de alguma população indígena. Seis indivíduos jaziam a uma profundidade de dois metros. Indaguei se tratava-se de um cemitério indígena. “Não”, me respondeu um dos legistas. Na verdade, se tratava de um outro tipo de chacina, essa, com uns cem anos.

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