terça-feira, 16 de julho de 2019

OS POSSESSOS (Conto de terror)

O crime terrível serviu apenas como desculpa para aumentar ainda mais a intolerância contra as
religiões de origem africana. Em um terreiro de umbanda, uma criança foi degolada por um pai de santo e o homem ainda tentou beber seu sangue. Embora em sua origem, a umbanda não sacrificasse animais, esse terreiro era um dos que recorria a essa pratica. Mas nada que fosse fora do normal. Em muitos outros lugares isso ocorria. Eram sacrificados animais de pequeno e médio porte: em sua maioria aves e caprinos. Nessa noite, após o sacrifício de um bode, o homem se voltou para a criança, cortou seu pescoço e tentou beber seu sangue. O fieis que estavam no culto, o detiveram e chamaram a polícia. Disseram que o homem estava possuído por uma entidade estranha, desconhecida de todos e não puderam entender o que acontecera. Vários membros de religião de matriz africana se manifestaram contra o ocorrido. Reiteraram que a umbanda era uma religião de paz e que o fato ocorrido nada tinha a ver com o rito comum da sua crença. Todas as pessoas razoáveis concordaram que se tratava de um caso isolado. Um pastor que atuava numa igreja no mesmo bairro do terreiro, tratou de combater o ímpeto de seus fiéis que estavam pregando que aquele tipo de religião cultuava o demônio. Todavia, não eram todos os líderes protestantes que pensavam assim. Um deles, também localizado nas redondezas, iniciou uma campanha tão vigorosa de combate às religiões afro-brasileiras, que conseguiu juntar um séquito de seguidores dispostos a tudo. Não demorou para que os homens se sentissem no dever de realizar o trabalho de um deus que não tolerava aquele tipo de religião. Numa noite, o grupo de dez ou doze homens, partiu numa perua em direção ao terreiro onde o crime acontecera. Havia pouco mais de um mês do ocorrido. O terreiro voltara a funcionar apenas há uma semana. No bairro fora feito uma campanha de esclarecimento sobre as peculiaridades das religiões de origem africana. Auxiliadas por um grupo de valorização da cultura negra e a escola da comunidade, os religiosos consideraram ter feito um bom trabalho. Mas então vieram os homens comandado pelo pastor e invadiram o terreiro, iniciando um terrível quebra-quebra. Os fiéis ficaram petrificados, vendo tamanho ato de intolerância. Acharam que a violência se restringiria aos móveis e objetos de culto, mas estavam errados. Logo, os homens do pastor começaram a agredir as pessoas. Alguns deles lançaram mão de facas e começaram a gritar: “Fora, demônios! Fora, em nome de Jesus. A violência culminou com a morte de três umbandistas e só teve fim quando a polícia chegou. Um dos membros do terreiro que presenciou tudo, disse que o olhar do pastor e seus homens era muito semelhante ao do pai de santo que assassinou a criança. “Acho que não importa a religião, o demônio anda solto de um lado para outro disseminando ódio e morte”, falou o rapaz.

Nenhum comentário:

Postar um comentário