O
crime terrível serviu apenas como desculpa para aumentar ainda mais a
intolerância contra as
religiões de origem africana. Em um terreiro de umbanda,
uma criança foi degolada por um pai de santo e o homem ainda tentou beber seu
sangue. Embora em sua origem, a umbanda não sacrificasse animais, esse terreiro
era um dos que recorria a essa pratica. Mas nada que fosse fora do normal. Em
muitos outros lugares isso ocorria. Eram sacrificados animais de pequeno e
médio porte: em sua maioria aves e caprinos. Nessa noite, após o sacrifício de
um bode, o homem se voltou para a criança, cortou seu pescoço e tentou beber
seu sangue. O fieis que estavam no culto, o detiveram e chamaram a polícia. Disseram
que o homem estava possuído por uma entidade estranha, desconhecida de todos e não
puderam entender o que acontecera. Vários membros de religião de matriz
africana se manifestaram contra o ocorrido. Reiteraram que a umbanda era uma
religião de paz e que o fato ocorrido nada tinha a ver com o rito comum da sua
crença. Todas as pessoas razoáveis concordaram que se tratava de um caso
isolado. Um pastor que atuava numa igreja no mesmo bairro do terreiro, tratou
de combater o ímpeto de seus fiéis que estavam pregando que aquele tipo de
religião cultuava o demônio. Todavia, não eram todos os líderes protestantes
que pensavam assim. Um deles, também localizado nas redondezas, iniciou uma
campanha tão vigorosa de combate às religiões afro-brasileiras, que conseguiu
juntar um séquito de seguidores dispostos a tudo. Não demorou para que os
homens se sentissem no dever de realizar o trabalho de um deus que não tolerava
aquele tipo de religião. Numa noite, o grupo de dez ou doze homens, partiu numa
perua em direção ao terreiro onde o crime acontecera. Havia pouco mais de um
mês do ocorrido. O terreiro voltara a funcionar apenas há uma semana. No bairro
fora feito uma campanha de esclarecimento sobre as peculiaridades das religiões
de origem africana. Auxiliadas por um grupo de valorização da cultura negra e a
escola da comunidade, os religiosos consideraram ter feito um bom trabalho. Mas
então vieram os homens comandado pelo pastor e invadiram o terreiro, iniciando
um terrível quebra-quebra. Os fiéis ficaram petrificados, vendo tamanho ato de
intolerância. Acharam que a violência se restringiria aos móveis e objetos de
culto, mas estavam errados. Logo, os homens do pastor começaram a agredir as
pessoas. Alguns deles lançaram mão de facas e começaram a gritar: “Fora,
demônios! Fora, em nome de Jesus. A violência culminou com a morte de três
umbandistas e só teve fim quando a polícia chegou. Um dos membros do terreiro
que presenciou tudo, disse que o olhar do pastor e seus homens era muito
semelhante ao do pai de santo que assassinou a criança. “Acho que não importa a
religião, o demônio anda solto de um lado para outro disseminando ódio e
morte”, falou o rapaz.
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