Ele olhou para a
imagem da multidão na TV e sua expressão pareceu de contentamento. A turba
enlouquecida pedia sangue. Ele provavelmente adoraria fazer parte daquela
multidão. Adorava essas coisas descontroladas, o impasse antes de uma
precipitação inevitável. Era muito excitante. Ficou torcendo para que alguma
coisa acontecesse. O povo gritava tão alto que fazia vibrar o chão sob seus
pés. Ou era impressão sua? Olhou para os homens ao seu redor e fez sinal
indicando que queria fumar. Um deles o olhou com desprezo como se dissesse que
era muita pretensão de sua parte. Outro, que parecia mandar nos demais,
minimizou as coisas. Acendeu ele mesmo um cigarro para si e entregou outro
cigarro para o sujeito. Abriu uma das janelas e fez um gesto largo para os
demais como se dissesse que tudo estava resolvido. Ele ficou fumando e perdeu
interesse nas imagens da televisão. Alguém aproximou dele um copo descartável
com água para usar como cinzeiro. Ficou fumando e relaxando, pensando em como
seria os próximos passos. Como seria recebido. Bem, provavelmente não seria com
flores e abraços, entretanto isso não o preocupava. Sabia exatamente como as
coisas funcionavam. Não tinha do que se lamentar. Se não morresse logo, se
adaptaria. Afinal, vivera uma vida de adaptação desde que se entendia por
gente. Era oriundo de um mundo miserável e obscuro, completamente rodeado de
violências e barbáries. Não importava nada. As cosias não tinham esse valor
todo que as pessoas atribuíam. Nem mesmo a vida tinha valor. Tudo era uma
supervalorização de quem tinha medo de tudo ou vivia abastado sem ter que lidar
com os pavores da vida. Ele não. Sua família o preparara bem. Seu pai
principalmente. Ainda mais porque agredia todo mundo dentro de casa desde
sempre. Um dia levou a pior quando ele e seu irmão mais velho o enxotaram de
casa. Era demais ver a mãe, por mais que fosse uma simples velha ranzinza e
bêbada, apanhando sem conseguir sequer levantar as mãos. Depois nunca mais viu
o pai. Melhor assim. Adentrou ao mundo louco, sozinho e não podia dizer que
tinha fracassado. Vivera livre, praticando sua própria loucura. Sim, ele achava
que era meio doido, assim como todo mundo. Era a coisa mais óbvia! Todos tinham
algum tipo de loucura e se forçava a escondê-la. Bem, alguns não. Como ele.
Tinha aceitado tudo, toda podridão do mundo, todas as adversidades e coisas que
as pessoas fingiam não existir. Nesse mundo e no outro. E no invisível onde
transitavam os mortos. Como bem explicara a avó, especialista em contar
histórias de assombração sob a luz da lamparina, com os olhos brilhantes, quase
todas as noites. Gostava sobretudo das histórias de matadores e da descrição de
defuntos podres e mutilados, escondidos por assassinos. Ele acreditava em um
mal maior no mundo, que dominava. Esse era forte, não o deus choroso dos
cristãos. E ele queria estar do lado dos fortes. Mesmo que se arrebentasse.
Tomou para si tudo que quis. Dinheiro, bebidas, drogas, mulheres, homens... A
vida daquelas crianças! Tinha degolado os três, escondido seus corpos.
Infelizmente a polícia o tinha pego. Agora estava ali naquela delegacia, a
multidão lá fora querendo linchá-lo, podia ver pela TV. Esperavam que o esquema
de segurança lá fora fosse reforçado para que ele fosse transferido. Tudo bem.
As coisas estavam em paz. Era a loucura do mundo e ele aceitava tudo
tranquilamente desde sempre.

Nenhum comentário:
Postar um comentário