sexta-feira, 26 de julho de 2019

O LOUCO E O MUNDO (Conto de terror)

Ele olhou para a imagem da multidão na TV e sua expressão pareceu de contentamento. A turba
enlouquecida pedia sangue. Ele provavelmente adoraria fazer parte daquela multidão. Adorava essas coisas descontroladas, o impasse antes de uma precipitação inevitável. Era muito excitante. Ficou torcendo para que alguma coisa acontecesse. O povo gritava tão alto que fazia vibrar o chão sob seus pés. Ou era impressão sua? Olhou para os homens ao seu redor e fez sinal indicando que queria fumar. Um deles o olhou com desprezo como se dissesse que era muita pretensão de sua parte. Outro, que parecia mandar nos demais, minimizou as coisas. Acendeu ele mesmo um cigarro para si e entregou outro cigarro para o sujeito. Abriu uma das janelas e fez um gesto largo para os demais como se dissesse que tudo estava resolvido. Ele ficou fumando e perdeu interesse nas imagens da televisão. Alguém aproximou dele um copo descartável com água para usar como cinzeiro. Ficou fumando e relaxando, pensando em como seria os próximos passos. Como seria recebido. Bem, provavelmente não seria com flores e abraços, entretanto isso não o preocupava. Sabia exatamente como as coisas funcionavam. Não tinha do que se lamentar. Se não morresse logo, se adaptaria. Afinal, vivera uma vida de adaptação desde que se entendia por gente. Era oriundo de um mundo miserável e obscuro, completamente rodeado de violências e barbáries. Não importava nada. As cosias não tinham esse valor todo que as pessoas atribuíam. Nem mesmo a vida tinha valor. Tudo era uma supervalorização de quem tinha medo de tudo ou vivia abastado sem ter que lidar com os pavores da vida. Ele não. Sua família o preparara bem. Seu pai principalmente. Ainda mais porque agredia todo mundo dentro de casa desde sempre. Um dia levou a pior quando ele e seu irmão mais velho o enxotaram de casa. Era demais ver a mãe, por mais que fosse uma simples velha ranzinza e bêbada, apanhando sem conseguir sequer levantar as mãos. Depois nunca mais viu o pai. Melhor assim. Adentrou ao mundo louco, sozinho e não podia dizer que tinha fracassado. Vivera livre, praticando sua própria loucura. Sim, ele achava que era meio doido, assim como todo mundo. Era a coisa mais óbvia! Todos tinham algum tipo de loucura e se forçava a escondê-la. Bem, alguns não. Como ele. Tinha aceitado tudo, toda podridão do mundo, todas as adversidades e coisas que as pessoas fingiam não existir. Nesse mundo e no outro. E no invisível onde transitavam os mortos. Como bem explicara a avó, especialista em contar histórias de assombração sob a luz da lamparina, com os olhos brilhantes, quase todas as noites. Gostava sobretudo das histórias de matadores e da descrição de defuntos podres e mutilados, escondidos por assassinos. Ele acreditava em um mal maior no mundo, que dominava. Esse era forte, não o deus choroso dos cristãos. E ele queria estar do lado dos fortes. Mesmo que se arrebentasse. Tomou para si tudo que quis. Dinheiro, bebidas, drogas, mulheres, homens... A vida daquelas crianças! Tinha degolado os três, escondido seus corpos. Infelizmente a polícia o tinha pego. Agora estava ali naquela delegacia, a multidão lá fora querendo linchá-lo, podia ver pela TV. Esperavam que o esquema de segurança lá fora fosse reforçado para que ele fosse transferido. Tudo bem. As coisas estavam em paz. Era a loucura do mundo e ele aceitava tudo tranquilamente desde sempre.

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