sexta-feira, 12 de julho de 2019

MEU VIZINHO (Conto de terror)

Conheci meu vizinho logo que mudei. Nós tínhamos praticamente a mesma idade: 13 anos. Ele era
um garoto risonho e inquieto. Um tanto esquisito em atitudes e gestos, algo que despertava risos e leves advertências. Em outras palavras, meio bobo, diferente dos outros meninos que começam a pensar em outras coisas. Depois dos dezoito anos ele tornou-se diferente em outros aspectos e foi quando tudo aconteceu. Primeiro eu notei que havia uma aura de maturidade em sua mentalidade, apesar da esquisitice permanente. Aliás, ele passou a ter uma estranheza mais sóbria e, não sei dizer direito porque, irônica e consciente. Nós nunca tínhamos sido muito amigos quando mais novos, mas agora a gente conversava com certa frequência quando eu saia ou voltava para casa. Ele estava sempre na esquina fumando cigarros, conversando e rindo com quem se dispusesse a gastar um tempo com ele. Tinha abandonado a faculdade de filosofia há algum tempo e não se importava muito com estudo e trabalho. Seu passatempo e única ocupação na vida era conversar e, a mim, fazer perguntas e suposições capciosas sobre o sentido da sociedade, das atitudes humanas e da vida em si. – Decidi fazer da minha vida um modelo – disse ele sorridente. – Um modelo de como se deve viver? – perguntei já sabendo de suas pretensões. – Não. Um modelo que não é modelo de nada – disse. Fiquei em silêncio vendo-o acender mais um cigarro. – Essa consciência não é nada... Só um efeito colateral dessa combinação estúpida de carbono que resultou na matéria vida... Disso ainda veio uma moral estúpida e vazia em que eu pretendo cuspir, mesmo com essa preguiça imensa – concluiu ele e ficou fumando. A nossa conversa tinha chegada um ponto bem interessante. Ele, segundo suas próprias palavras, tinha atingido um niilismo militante em que, apesar de negar os propósitos da vida, se sentia imbuído de uma missão. Contou que no primeiro momento negou isso, se sentindo um messias palhaço e embusteiro, mas depois de muito tempo não conseguiu tirar isso da cabeça. No entanto, nunca me dizia qual era seu objetivo. Pelo menos não de uma maneira clara. Meu vizinho passou um tempo criticando aspectos superficiais da nossa sociedade e agora se empenhava em atacar à existência humana, descrevendo-a como uma febre. Até aí nada de novo. Embora cursasse faculdade de história, não filosofia como ele fizera, eu estava ciente de vários sistemas filosóficos e não via nada de novo em seu discurso. Ainda assim era interessante ouvi-lo. Muito mais quando falava dos aspectos humanos de maneira tão pessimista que fariam o filósofo Nietzsche corar. Meu vizinho passou a defender a loucura e intensas experiências extremas mesmo que estas resultassem em morte e ferimento. Numa tarde descreveu todas as experiências sexuais estranhas a que se submetera e disse que qualquer pessoa seria capaz de praticar qualquer coisa, bastava uma permissão física chancelada pela mente. Sugeriu que todo mundo poderia ser depravado e perverso sexualmente. Especulou sobre ter alguma forma de esquizofrenia e que isso era bom, já que o fazia ver além. Disse que desejava ter câncer para saber como eram as dores e que só em dúvida sobre que tipo de morte lhe traria melhor experiência. -–Já pensou cair em um vulcão ativo? Que morte! – falou uma vez. – E numa explosão nuclear? O bom seria saber que outros seres humanos também seriam vaporizados nesse momento. – Mencionava essas coisas animado. Mas não tanto quanto passou a falar de assassinos. Sua incrível memória absorveu em detalhes as histórias de vida de todos assassinos em série famosos. Descrevia-os psicologicamente de maneira minuciosas assim como seus terríveis crimes. Ainda assim me surpreendi quando, num dia pela manhã, saí de casa e me surpreendi com a polícia conduzindo-o algemado. – Se acordar de madrugada, não encare o relógio e nem o espelho... Foi assim que tudo começou pra mim – ele informou sorrindo. Depois soubemos que ele tinha assassinado três pessoas.

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