Conheci meu vizinho
logo que mudei. Nós tínhamos praticamente a mesma idade: 13 anos. Ele era
um
garoto risonho e inquieto. Um tanto esquisito em atitudes e gestos, algo que
despertava risos e leves advertências. Em outras palavras, meio bobo, diferente
dos outros meninos que começam a pensar em outras coisas. Depois dos dezoito
anos ele tornou-se diferente em outros aspectos e foi quando tudo aconteceu.
Primeiro eu notei que havia uma aura de maturidade em sua mentalidade, apesar
da esquisitice permanente. Aliás, ele passou a ter uma estranheza mais sóbria
e, não sei dizer direito porque, irônica e consciente. Nós nunca tínhamos sido
muito amigos quando mais novos, mas agora a gente conversava com certa
frequência quando eu saia ou voltava para casa. Ele estava sempre na esquina
fumando cigarros, conversando e rindo com quem se dispusesse a gastar um tempo
com ele. Tinha abandonado a faculdade de filosofia há algum tempo e não se
importava muito com estudo e trabalho. Seu passatempo e única ocupação na vida
era conversar e, a mim, fazer perguntas e suposições capciosas sobre o sentido
da sociedade, das atitudes humanas e da vida em si. – Decidi fazer da minha vida
um modelo – disse ele sorridente. – Um modelo de como se deve viver? – perguntei
já sabendo de suas pretensões. – Não. Um modelo que não é modelo de nada –
disse. Fiquei em silêncio vendo-o acender mais um cigarro. – Essa consciência
não é nada... Só um efeito colateral dessa combinação estúpida de carbono que
resultou na matéria vida... Disso ainda veio uma moral estúpida e vazia em que
eu pretendo cuspir, mesmo com essa preguiça imensa – concluiu ele e ficou
fumando. A nossa conversa tinha chegada um ponto bem interessante. Ele, segundo
suas próprias palavras, tinha atingido um niilismo militante em que, apesar de
negar os propósitos da vida, se sentia imbuído de uma missão. Contou que no
primeiro momento negou isso, se sentindo um messias palhaço e embusteiro, mas
depois de muito tempo não conseguiu tirar isso da cabeça. No entanto, nunca me
dizia qual era seu objetivo. Pelo menos não de uma maneira clara. Meu vizinho
passou um tempo criticando aspectos superficiais da nossa sociedade e agora se
empenhava em atacar à existência humana, descrevendo-a como uma febre. Até aí
nada de novo. Embora cursasse faculdade de história, não filosofia como ele
fizera, eu estava ciente de vários sistemas filosóficos e não via nada de novo
em seu discurso. Ainda assim era interessante ouvi-lo. Muito mais quando falava
dos aspectos humanos de maneira tão pessimista que fariam o filósofo Nietzsche
corar. Meu vizinho passou a defender a loucura e intensas experiências extremas
mesmo que estas resultassem em morte e ferimento. Numa tarde descreveu todas as
experiências sexuais estranhas a que se submetera e disse que qualquer pessoa
seria capaz de praticar qualquer coisa, bastava uma permissão física chancelada
pela mente. Sugeriu que todo mundo poderia ser depravado e perverso sexualmente.
Especulou sobre ter alguma forma de esquizofrenia e que isso era bom, já que o
fazia ver além. Disse que desejava ter câncer para saber como eram as dores e
que só em dúvida sobre que tipo de morte lhe traria melhor experiência. -–Já
pensou cair em um vulcão ativo? Que morte! – falou uma vez. – E numa explosão
nuclear? O bom seria saber que outros seres humanos também seriam vaporizados
nesse momento. – Mencionava essas coisas animado. Mas não tanto quanto passou a
falar de assassinos. Sua incrível memória absorveu em detalhes as histórias de
vida de todos assassinos em série famosos. Descrevia-os psicologicamente de
maneira minuciosas assim como seus terríveis crimes. Ainda assim me surpreendi
quando, num dia pela manhã, saí de casa e me surpreendi com a polícia
conduzindo-o algemado. – Se acordar de madrugada, não encare o relógio e nem o
espelho... Foi assim que tudo começou pra mim – ele informou sorrindo. Depois
soubemos que ele tinha assassinado três pessoas.

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