Dizem
que o município de Queimados – não confundir com Queimadas – é assombrado.
Obviamente
que algumas pessoas não o creem, mas há um consenso bem difundido,
principalmente entre os mais velhos de que Queimados é um lugar onde se
manifestam fantasmas e outras coisas inexplicáveis. Não se trata de uma simples
casa, rua ou localidade, mas todos seus distritos – alguns enormes – que se
estendem do sertão ao litoral. Histórias sobrenaturais superabundam por toda
parte e, misturados a uma crescente violência urbana, acabam criando novas
narrativas de puro horror. Existem casos antigos como o do Padre sem cabeça que
anda pela beira da praia; a da mulher bela que seduz incautos na madrugada e
logo depois mostra sua verdadeira face terrivelmente mutilada; o grupo de
crianças fantasmas que surge pedindo dinheiro para quem ouse atravessar as
largas ruas vazias durante a noite e a premonitória imagem do funeral. Este
último se tratava da visão terrível de um velório que surgia nas esquinas e
vaticinava o fim do infeliz que a encontrava. Essas histórias têm semelhantes
em várias regiões do nordeste brasileiro e hoje, na maioria dos lugares,
constituem apenas histórias que avós contavam para assustar as crianças. A diferença
em Queimados é que estas narrativas se renovam, se mesclam a novas relatos
incríveis e misteriosos. Um exemplo é o de quatro homens encontrados mortos na
areia da praia, as cabeças decepadas e ausentes. Havia um enorme crucifixo no
local, mas alguns, ao invés de considerar um terrível acerto entre bandidos,
achou mais lógico atribuir tudo ao Padre sem cabeça. Em outro caso, um sujeito
se disse atacado pela bela que depois revela seu rosto desfigurado, chocando a
vítima com uma imagem de puro horror, capaz de fazer desmaiar qualquer um. Seus
amigos concordaram que o colega preferia aquela história a de que ele fora
simplesmente enganado e roubado por uma mulher da vida. E assim seguem as
lendas urbanas – e um tanto rurais - em Queimados com inúmeras casas mal-assombradas
e descampados que inspiram pavores. A realidade é que naquela localidade sempre
houve muita violência. Dizem que o embate de índios e homens brancos foi
terrível. E ocorreu durante anos. Inúmeros mortos e maus tratos aos indígenas
que ultrapassam qualquer tema de filme assustador. Um historiador afirmou uma
vez que os mestiços de brancos com índios naquela localização, são legítimos
descendentes de estupros em massa. Toda a atividade fantasmagórica,
supostamente, seria resultado de uma maldição oriunda dos massacres. Mas há
também quem fale de rituais terríveis envolvendo sacrifícios humanos e nada
oriundo da parte dos selvícolas. Falam que o homem branco, nos tempos da corte
portuguesa, teria trazido do velho mundo a velha bruxaria adicionada às suas
grandes ambições. Seja como for, as histórias pavorosas continuam, não parecem
ceder ante a modernidade. As possibilidades são claras: ou se trata de um
município assombrado por causa dos terríveis crimes ou esses crimes se
multiplicaram por assombros autônomos. O mais aceito no entanto, é que os dois
coexistam com um alimentando outro, verdadeira natureza dos lugares
assombrados, dizem...
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