terça-feira, 23 de julho de 2019

O MUNICÍPIO ASSOMBRADO (Conto de terror)


Dizem que o município de Queimados – não confundir com Queimadas – é assombrado. Obviamente
que algumas pessoas não o creem, mas há um consenso bem difundido, principalmente entre os mais velhos de que Queimados é um lugar onde se manifestam fantasmas e outras coisas inexplicáveis. Não se trata de uma simples casa, rua ou localidade, mas todos seus distritos – alguns enormes – que se estendem do sertão ao litoral. Histórias sobrenaturais superabundam por toda parte e, misturados a uma crescente violência urbana, acabam criando novas narrativas de puro horror. Existem casos antigos como o do Padre sem cabeça que anda pela beira da praia; a da mulher bela que seduz incautos na madrugada e logo depois mostra sua verdadeira face terrivelmente mutilada; o grupo de crianças fantasmas que surge pedindo dinheiro para quem ouse atravessar as largas ruas vazias durante a noite e a premonitória imagem do funeral. Este último se tratava da visão terrível de um velório que surgia nas esquinas e vaticinava o fim do infeliz que a encontrava. Essas histórias têm semelhantes em várias regiões do nordeste brasileiro e hoje, na maioria dos lugares, constituem apenas histórias que avós contavam para assustar as crianças. A diferença em Queimados é que estas narrativas se renovam, se mesclam a novas relatos incríveis e misteriosos. Um exemplo é o de quatro homens encontrados mortos na areia da praia, as cabeças decepadas e ausentes. Havia um enorme crucifixo no local, mas alguns, ao invés de considerar um terrível acerto entre bandidos, achou mais lógico atribuir tudo ao Padre sem cabeça. Em outro caso, um sujeito se disse atacado pela bela que depois revela seu rosto desfigurado, chocando a vítima com uma imagem de puro horror, capaz de fazer desmaiar qualquer um. Seus amigos concordaram que o colega preferia aquela história a de que ele fora simplesmente enganado e roubado por uma mulher da vida. E assim seguem as lendas urbanas – e um tanto rurais - em Queimados com inúmeras casas mal-assombradas e descampados que inspiram pavores. A realidade é que naquela localidade sempre houve muita violência. Dizem que o embate de índios e homens brancos foi terrível. E ocorreu durante anos. Inúmeros mortos e maus tratos aos indígenas que ultrapassam qualquer tema de filme assustador. Um historiador afirmou uma vez que os mestiços de brancos com índios naquela localização, são legítimos descendentes de estupros em massa. Toda a atividade fantasmagórica, supostamente, seria resultado de uma maldição oriunda dos massacres. Mas há também quem fale de rituais terríveis envolvendo sacrifícios humanos e nada oriundo da parte dos selvícolas. Falam que o homem branco, nos tempos da corte portuguesa, teria trazido do velho mundo a velha bruxaria adicionada às suas grandes ambições. Seja como for, as histórias pavorosas continuam, não parecem ceder ante a modernidade. As possibilidades são claras: ou se trata de um município assombrado por causa dos terríveis crimes ou esses crimes se multiplicaram por assombros autônomos. O mais aceito no entanto, é que os dois coexistam com um alimentando outro, verdadeira natureza dos lugares assombrados, dizem...

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