terça-feira, 9 de julho de 2019

A VILA (Conto de terror)

Quando deixei minha cidade para morar na capital e cursar medicina, eu me achei ainda mais sortudo por
conseguir um lugar barato e perto da faculdade. Apesar dos meus pais terem condições de sobra de me sustentarem, era bom fazer economia. Era bom também acordar pela manhã e estar há poucos minutos do hospital universitário. Além de tudo, eu adorava o bairro da faculdade. Um bairro antigo com casas suntuosas que me proporcionava um raro sentimento de nostalgia. Eu ficava perdido em pensamentos quando parava e me detinha olhando para aquelas residências – muitas convertidas em albergues para estudantes – imaginando quantas vidas e rotinas tinham passado por ali ao longo dos anos. Tantos estudantes, agora grandes profissionais, muitos famosos, atuando pelo mundo e, claro, alguns já mortos. Eu sentia uma satisfação imensa em saber que ali fora o berço de incontáveis médicos, dentistas e psicólogos. Agora eu também faria parte daquela história e aquele lugar também estaria comigo para sempre. Por toda parte, uma juventude fervilhante de alunos indo e vindo entre os departamentos estudantis. Familiares de pacientes entrando e saindo do hospital. Era um bairro absolutamente movimentado durante o dia, mas à noite, tudo mudava. As ruas e o entorno da faculdade se tornavam extremamente silenciosas e vazias. O que estranhamente me lembrava o clima do filme Linha mortal com Kiefer Sutherland, Kevin Bacon e Julia Roberts. Mas havia outra coisa que me chamava atenção. Algo que destoava das outras moradias para estudantes. A vila onde eu vivia, embora fosse destinada a estudantes, tinha poucos deles. A maioria eram pessoas mais velhas que passavam por mim cabisbaixas. E depois de um tempo, percebi outra coisa: que na vila em que eu morava, pairava sempre uma tristeza e um sentimento de pesar inconfundível. Disse várias vezes a mim mesmo que era impressão minha, porém, cada vez mais a melancolia se confirmava. Às vezes eu acordava no meio da noite e ouvia alguém chorando. Também ouvia passos apressados, incompatíveis com o horário e o hábito daquelas pessoas. Nesse momento eu sentia a mais negra melancolia e pensamentos terríveis se apoderavam do meu ser. Naquele momento, a felicidade de ser jovem e estar realizando sonhos se desfazia e só o que me dominavam eram sentimentos de tristezas e maus presságios. Vinha em mim a certeza de que algum dos meus familiares estava doente ou sofrera um acidente. Eu ligava para minha mãe no meio da noite, perguntando se estava tudo bem. Pela manhã, se desfaziam aqueles sentimentos de angustia e maus presságios. Todavia, a noite tudo retornava. E cada vez ficava maior. Havia ocasiões em que eu não dormia, ouvindo o pranto vizinho, sentindo o pavor se multiplicar. Algo notável também, foi a frequência em que as pessoas se mudavam daquela vila. Eu estava ali há apenas um mês e percebia que pessoas tinham vindo ali e morado uma semana ou apenas alguns dias. Eu nunca fora uma pessoa supersticiosa, no entanto, eu sabia que havia algo de ruim ali, algo de terrível que transcendia ao senso comum. Uma noite eu acordei, perturbado como sempre e não pude evitar de me encolher súbito na cama. Diante de mim, recortado pelas primeiras luzes da manhã, estava a silhueta de um homem. Ele pareceu levar o dedo indicador aos lábios, num gesto de quem pede silêncio. Desapareceu em seguida. E eu fiquei paralisado, por vários minutos no meu canto. Temendo que a aparição voltasse ou algo ainda pior acontecesse. Quando o dia clareou definitivamente, liguei para os meus pais. Tinha tomado uma decisão. Entrei em contato com o proprietário do imóvel e rescindi o contrato. Dois dias depois eu estava em outra residência para estudantes. Um pouco mais cara, mais afastada da faculdade, porém confortável e animada dia e noite. Após uma semana, numa conversa com amigos sobre a antiga moradia, um deles, um estudante de odontologia me contou o que tinha ouvido falar da minha moradia. Um conhecido seu, descobrira que o terreno em que se encontrava a vila, antes fora a residência de um velho patriarca rico. O homem tivera cinco filhos biológicos, mas também adotara mais dez crianças. Depois foi descoberto que ele abusava física e sexualmente tanto dos filhos legítimos, quanto dos filhos adotados. Duas dessas crianças tinham desaparecido. Depois do escândalo que chocou a cidade na época, a polícia descobriu os corpos das duas crianças enterradas no quintal. No bairro, os mais antigos que conheciam a história, não gostavam de lembrar do fato. Talvez por isso quase ninguém sabia do porquê aquele lugar ser funesto e morbidamente melancólico.

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