domingo, 30 de setembro de 2018

FÁBRICA DE FANTASMAS (Conto de terror)


Ela chegou sozinha à chácara. Foi dirigindo tranquila, conhecia bem a região, o caminho irregular, cercado de mato fechado. Frequentava o lugar desde criança. Tinha sido a casa de campo da família dela. Finais de semana divertidos que não podia esquecer. Churrascos, banhos de piscina, fogueiras a noite e até mesmo dormir fora da casa, num pequeno acampamento com irmãos e primos. Quando o tempo passou, veio o descuido da propriedade, todo mundo foi se desgostando do lugar. Vieram às casas de praia dos tios, dos amigos de seu pai que tomaram o tempo de lazer dos finais de semana. Nova empolgação: som de mar, piscinas maiores ao invés de céus estrelados e sons de grilos a noite. Então o pai comprou uma casa bem perto da praia e a chácara ficou esquecida. Era bom ir à praia com a família, mas ela nunca esqueceu do campo, da piscina modesta, das noites frias, do cheiro do mato e histórias assustadoras perto do fogo. Quando se tornou adulta comprou a chácara do pai. Não falava com o velho havia anos, mas foi uma negociação rápida e o preço muito bom. Era o mínimo que ele podia fazer depois de anos de desentendimento. Tinha resolvido os principais problemas da propriedade. Agora aquele era seu santuário particular. Vinha passar muitos finais de semana ali. As vezes sozinha. Não importava que lhe dissessem que era perigoso. Ouvira casos de invasões às propriedades próximas. Pessoas tinham sido roubadas, espancadas, estupradas. A violência exacerbada dos centros urbanos chegava nas regiões mais afastadas com rapidez espantosa. Mas não ia se atormentar com isso. Desceu do carro, abriu as duas imensas metades do portão de madeira, entrou no automóvel e o estacionou além dos muros. Fechou tudo e se sentiu em seu mundo. Seguiu pelo caminho cercado de flores e pitangueiras que formavam uma cerca viva. Se sentia feliz como não podia se sentir em lugar algum. Ela chegou até a porta da casa principal e parou ao ouvir algo. Olhou para trás. Será que havia alguém ali? Se sentiu observada. Ultimamente isso tinha sido comum naquele lugar. Sempre a sensação clara de que alguém estava ali observando tudo que ela fazia. Mesmo quando ia no banheiro, a presença não desvanecia. 
Estava preparando um lanche na cozinha quando o som de pancadas a fez para súbito. Ficou ouvindo, olhos no ar. Foi até a porta da cozinha e observou. Diante dela somente as árvores, o som distante dos pássaros e do vento. Era um dia claro de sol. Tudo na mais perfeita normalidade não fossem aquele barulho. Voltou a cozinha, terminou de preparar o sanduíche e foi até a varanda. Sentou-se e ficou comendo enquanto observava a paisagem à sua frente. Haviam duas mangueiras frondosas, pés de goiaba, acerola e as belas muretas feitas com as pitangueiras. Lembrou que em determinada época do ano – não lembrava o mês – quando havia pitangas maduras, o cheiro era uma coisa soberba. Terminou de comer o sanduíche e bebeu o ultimo gole de refrigerante. Acendeu um cigarro e ficou fumando, se sentindo ainda mais relaxada. Aquele era seu reino, suas melhores lembranças de infância, seu porto seguro. Na chácara aquilo nunca acontecera. Sim. Sabia que isso era mais por causa da quantidade de pessoas do que pelo local em si, mas não importava. Deu mais um trago no cigarro e se sentiu zonza. Que sensação mais relaxante, pensou. E as coisas ainda estavam apenas começando. Mais tarde pretendia ter uma longa conversa com a garrafa de vinho que trouxera. Iam ser só ela, a bebida, os cigarros, as boas lembranças... e aquele homem que vinham agora cruzando metade da chácara vindo ao seu encontro? Ela fez um movimento a frente com a cabeça e encarou o homem que vinha caminhando e sumiu diante dos seus olhos. Agora tinha sido claro. Não fora uma pancada a esmo, mas tinha visto mesmo o sujeito. Apagou o cigarro no cinzeiro, pegou o prato, o copo e entrou em casa.
No quarto tirou toda a roupa e ficou se olhando nua no espelho. Provavelmente a estavam observando, ela pensou. Não era de se espantar. Mesmo quando era criança passava por isso. E isso fora o princípio de tudo. Colocou o biquíni e saiu.
Saiu da piscina, sentou na borda e inclinou a cabeça para trás de modo que pudesse sentir ainda melhor o sol. Era pouco mais de meio dia, um sol não muito aconselhável, mas tudo bem. Não era de exagerar. Tinha os olhos fechados, sentindo os raios de sol lhe aquecendo a pele e percebendo a presença deles todos ali. Agora eles tinham perdido a timidez. Se acercavam dela sem receio nenhum. Tinha certeza de que se abrisse os olhos podia ver a todos. Mas não fez isso. Pulou novamente na piscina e ficou nadando de uma borda a outra. Depois saiu, se envolveu na toalha, acendeu mais um cigarro e ficou fumando sentada numa das imensas cadeiras inclinadas. Olhou e viu alguns deles ao longe. Ou seria sua visão que estava lhe pregando peças? Apertou os olhos na direção em que julgava que eles estavam. Sim, havia alguns ali. Não precisava ter medo. Tivera medo muitas vezes na vida. Aqueles outros, sim, tinham lhe proporcionado medo. Não mais. Fazia tempo que ela deixara de ser uma garota indefesa. O último engraçadinho tinha levado um tapa na cara, na frente de todo mundo.
Depois de uma longa e refrescante ducha, ela armou a rede na varanda e dormiu como se estivesse deitada em nuvens. Aquilo sim, um pequeno pedaço do paraíso. Ela sozinha, no seu lugar favorito no mundo inteiro. Acordou no fim da tarde e continuou deitada, observando a paisagem. Não sabia dizer porque, mas havia algo de melancólico na própria felicidade. Agora com a luz diminuindo, ficaria ainda mais fácil vê-los. Tudo isso era um peso. Mas tudo bem.  Com um impulso do pé na parede, começou a se balançar e logo lembrou que nunca dormia de rede em casa. Ali tudo, bem, mas em casa dava uma sensação ruim. Era na rede que ele a atacara muitas vezes. Ele e outros. Felizmente na chácara tudo ficava anulado. E não era apenas porque na infância se sentia segura ali, mas porque a justiça era feita. Levantou-se num impulso, foi até a sala, pegou o vinho, os cigarros. Depois foi até a cozinha. Cortou um pedaço de queijo coalho. Tira gosto perfeito. Fui até a varanda e ficou bebendo, comendo e fumando. Depois de um tempo, ligou o som. A música tomou conta do ambiente. Escurecia. A melhor hora estava chegando.
Não estava nem embriagada, mas já via eles chegando. Eles ficavam parados no gramado, entre a piscina e a varanda, diante dela. Simplesmente a observavam com olhar resignado. Não podiam fazer nada. Talvez a estivessem olhando com ódio, mas o que poderiam fazer? Sorriu.
- Agora vocês não podem mais fazer nada com ninguém.
Quem dera existisse alguém como ela quando era uma criança. Não teria problema seu pai ter entrado na lista. Alguns tios, primos. O desgraçado do vizinho. Olhou para o grupo parado diante dela. Contou-os um por um. Recordava suas histórias enquanto fazia isso. Foi então percebeu que faltava um. Maldição! Será que tinha escapado. Não, não era possível. Ergue-se num impulso e correu até a residência do caseiro. Era uma casa pequena e simples. Ninguém morava lá no momento. Só servia para guardar tranqueiras e... Eles. A porta estava devidamente trancada. Abriu-a. Entrou, acionou as luzes. O cheiro era insuportável. Era melhor tomar uma resolução antes que aquilo chamasse a atenção de alguém, afinal, nunca se sabia. Mas isso não era o mais urgente. Caminhou por entre os corpos e logo o encontrou. Estava num canto. Se tinha ido até ali, obviamente que ainda estava vivo. Pegou o imenso facão na prateleira. Passou a ponta do instrumento no peito do homem. O sujeito estrebuchou. Ali estava a comprovação. Morto de maneira nenhuma. Ele tinha as mãos e os pés amarrados, uma fita adesiva na boca, sangrava de um enorme ferimento na cabeça.
- Meu Deus. Já pensou se eu tivesse te deixado aqui desamarrado. Pensando que você tinha morrido. Ai, ai. Capaz de você sair e me causa problemas.
O homem fez barulhos tentando falar alguma coisa. Certamente um pedido de clemencia.
- Você é duro de morrer, não? Dois dias aqui, ferido, sem beber um gole d’água.
O outro continuava tentando dizer alguma coisa.
Ela foi e tirou a fita adesiva.
- Por favor, moça, não me mate... Nunca fiz aquelas coisas que a senhora falou.
- Sabia que dificilmente alguém acredita nas menininhas quando elas contam o que vocês fazem.
- Mas eu não fiz nada com menininha alguma...
- Minha fonte é segura.
- Pelo amor de Deus...
- Chega de conversa – ela gritou. – Você já devia ter virado fantasma. Não te vi lá com os outros... Mas vou já resolver isso...
O homem começou a gritar enquanto ela ergueu o facão e o desceu com toda a força... Uma vez, duas vezes, três vezes...
E ele parou de gritar. O sangue agora saindo em profusão do seu pescoço.
- Agora vamos ver em quanto tempo você aparece lá com os fantasmas dos outros tarados.

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