Ele aprendeu a conjurar os mortos quando tinha 17 anos. Fred perdeu o pai e pouco tempo depois se envolveu com um sujeito que dizia saber tudo sobre o mundo dos espíritos. Eles tiveram um intenso relacionamento amoroso e o homem o ensinara sobre necromancia e outros assuntos do ocultismo. O relacionamento foi intenso, durou dois anos. Mas o casal revezou momentos do mais sublime amor até demonstração de ódio e obsessão. Eles se separaram em meio a brigas e escândalos. E nunca mais se viram. Fred ficou com um sentimento de solidão e decidiu pôr em prática os ensinamentos do ex-amante. Movido pela e a saudade que tinha do pai - a única pessoa no mundo que o compreendera de verdade -, fez o ritual e o contatou numa madruga em seu quarto. Nunca o fizera antes por causa de receios que ele mesmo nunca soube explicar ou, simplesmente, porque não era o tempo. Agora, se sentindo sozinho no mundo resolvera tentar falar com o pai. Foi uma felicidade imensa. Ali estava a prova de que existia uma outra vida, que seu ex, apesar dos pesares, era realmente um homem de conhecimentos incríveis e, o mais importante, que podia ter algum consolo e esperança na vida. Fred viu seu pai tal como ele era quando vivo e saudável. O fantasma lhe disse que sentia sua falta, que estava num bom lugar, que esquecera todas as suas mágoas da vida, que estava feliz porque ele tinha se tornado um bom rapaz. Também pediu que se aproximasse de sua mãe, mesmo que tivesse que ceder em alguns pontos, pois sabia que o relacionamento deles era difícil. Por fim desejou o melhor para o filho e se foi. Fred ficou em êxtase. Daquele dia em diante não se sentiu mais desamparado. Mesmo não conseguindo acertar as coisas com sua mãe - ela não aceitava sua homossexualidade - sua vida seguiu com uma força de caráter e ânimo surpreendentes. Fez o que pôde e relação a sua genitora. Forma inúmeras as tentativas que ele fez de se conciliarem. Não houve resultado e a relação deles ficou reduzida a encontros furtivos de reuniões familiares. Foi na idade de 38 anos que Fred voltou a consultar os mortos. Nessa ocasião, estava bastante abalado por causa da morte de seu companheiro depois de cinco anos juntos. Uma relação bastante diferente dos seus anos conturbados de jovem. Os dois se consideravam almas gêmeas e a morte de Erasmo trouxe uma amargura tão grande que Fred se viu a beira de uma terrível depressão. Seu companheiro morreu de uma enfermidade súbita que parou seus rins. Uma enfermidade rara e não totalmente inexplicada. Bem no início, lembrou de seus conhecimentos, mas imaginou que invocar Erasmo não lhe trariam muito consolo. Uma visão turva do espirito do seu amado talvez lhe trouxesse mais saudade e tristeza. Além do mais, lembrava de uma específica instrução sobre invocar os mortos: não tentar contactar desencarnados recentes. Mas aos poucos, sua cautela e tristeza deram lugar ao desespero e a urgência. Em seu apartamento, no quarto que fora dele e do companheiro, fez o ritual e o invocou intensamente. A princípio a velha magia pareceu ineficiente. A lembrança do seu incrível contato na juventude, uma ilusão que sua mente criara. Mas então ele insistiu e dessa vez com mais fé. O clima no quarto ficou tremendamente frio. As coisas começaram a sair do lugar e Fred achou que o fenômeno era bastante diferente daquele que fizer para contactar seu pai. O homem se sentiu observado por olhos invisíveis na sua retaguarda. Aquilo lhe deu um arrepio que fez sua carne tremer. Ali estava a porta de entrada para outros mundos. Erasmo entrou no quarto caminhando como costumava fazer em seus dias de vida quando entrava ali, vindo casualmente de um dos cômodos do apartamento. Fred ficou extasiado, mas logo percebeu que o fantasma do homem que amara não parecia contente. Erasmo contou que tinha sido assassinado. Concluíra no além, depois de muito sofrimento, que a mãe de Fred o envenenara. Dito isso sua imagem se alterou de uma maneira assustadora. Com um vento forte e objetos saindo do lugar, desapareceu. Fred ficou absolutamente chocado. Não podia crer naquela paródia grotesca de Hamlet. Vieram dias cinzentos na vida de Fred. Ele faltou o emprego, passava dias dormindo e quando acordava chorava desesperadamente. O tempo todo sozinho com aquela dúvida e suspeita: tinha uma mãe assassina ou invocara um demônio ao invés do espectro do namorado? Os dias se passaram e os pensamentos do homem foram se voltando para sua genitora. Ela realmente odiara Erasmo em vida, odiara que seu filho fosse homossexual e em sua mentalidade perversa, matar o namorado do filho seria uma resolução prática e justa. Fred também lembrou que a velha era habilidosa em fazer chás e poções. Erasmo fumava e tomava muitos cafés. E continuava com seu hábito quando visitavam a mãe de Fred. Um dia antes de cair doente, os dois estiveram lá numa das raras e estranhas visitas do casal. Então, num melancólico domingo, ele foi até o quarto da mãe que dormia a sesta. Usando um travesseiro ele a sufocou com lágrimas nos olhos. Matou a megera, a mulher que a colocara no mundo, mas que nunca o amara, que o desprezara desde sempre. Assassinou por vingança, por ódio, por tristeza, desespero e desgraça... O fez com alegria, com raiva, com tristeza, pavor e remorso. Aquele ser sagrado e maldito que o rejeitara, que desprezara seu pai, que lhe dera vida, mas o impedira o amor de todas as formas. Foi para casa chorar e esperar a notícia. A empregada ligou no fim da tarde. "Fui no quarto acordar sua mãe, Seu Fred, mas ela..." Ele foi até lá e providenciou as coisas. Depois voltou para casa. Invocou a alma do namorado. A aparição se transformou numa terrível criatura que ele fecho os olhos para não ver. Aquilo gargalhou, depois simplesmente sumiu. Ele entrou em pânico. Passou a noite acordado, remoendo seu crime, tomando goles de uísque e fumando cigarros - hábitos raros em sua vida. Dormiu no sofá. Acordou com o telefone tocando ao meio dia. Atendeu: era o delegado de polícia, responsável pelos crimes no bairro que sua mãe morava. Ele precisava ir à delegacia o mais rápido possível. Depois que desligou o telefone, Fred levou as mãos ao rosto e chorou. Quando ergueu os olhos, o demônio estava diante dele: era uma caricatura de Erasmo, com olhos enormes e boca larga, como um palhaço monstruoso. E gargalhava, gargalhava muito.

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