Todo mundo já ouviu falar em amigos imaginários. Muita gente já teve um. É coisa bastante normal, saudável, desde que tenha certos limites. Fui levado a pensar que tivesse um também. Lembro bem o quanto me surpreendi quando ouvi os adultos dizendo que eu tinha amigo imaginário. Para mim ele era real. Aquelas afirmações me confundiram. Disse que eles estavam errados, mas ele insistiram e disseram que estava tudo bem. Acontece que não era um amigo imaginário. Não estava louco, nem estou. Eu era diferente apenas, sonhador e recluso. Meu amigo era real. Eu não podia ter ou demonstrar certezas para ninguém. Não possuía maturidade, um discernimento claro, e acabei me deixando levar pelas conclusões dos adultos. Se eles fossem mais atentos, teriam percebido que meu amigo não era nada imaginário. Não era coisa da minha cabeça como achavam. E acho que isso foi a razão para as desgraças que vieram, para tudo que veio depois. E afirmo, inicialmente, a culpa não foi minha. Gupta, me apareceu logo após virmos morar ali. Ele aparentava ter sete anos de idade como eu, mas quando eu o indaguei uma vez a cerca de idade, ele disse que eu não acreditaria se falasse quantos anos tinha, que era mais velho que qualquer adulto que eu conhecia. Eu achava que ele era tão real quanto qualquer outro garoto da rua. Como disse, foram os adultos que falaram que ele não existia. Então depois disso comecei a desconsiderar as coisas que ele dizia, o que fazíamos juntos. Para mim, nossas pequenas travessuras passaram a ter ainda menos importância, exatamente porque não era para valer. Tudo fazia parte do pacote da imaginação. Uma vez falei para Gupta sobre a opinião dos adultos e ele disse que era melhor assim. Nós nos ocupávamos principalmente em explorar. Perto da nossa casa havia uma velha fábrica abandonada e um razoável trecho de floresta. Eu morava nos limites da cidade e além da nossa casa, as vias se abriam em estradas e descampados. Era um tempo bastante diferente dos atuais. Não havia a violência como hoje, ainda mais numa zona de transição como aquela. Isso permitia que eu tivesse uma liberdade incrível. Um mundo de possibilidades que eu compartilhava com meu amigo estranho e camuflado dos adultos. Meus pais pensavam que eu era reservado. Um garoto por demais reservado, diferente dos demais. Dessa forma, minhas horas de vadiagem com meu amigo eram mais amplas do que deveriam ser. Minha família conhecia todo mundo naquela localidade, tinha muitos parentes por ali e por isso não se preocupavam. Sabiam que eu estaria na fábrica abandonada ou na floresta, caminhando ao lado do meu amigo inexistente. Gupta e eu fazíamos pequenas travessuras. Jogávamos bolas de gude em janelas, produzíamos pequenas fogueiras, caçávamos pequenos lagartos, pássaros e essas demais coisas que os meninos dessa idade gostam de fazer. Foi ele, sim, ele que começou com as pegadinhas mais pesadas. Convencido de que todo era uma fantasia, me deixei levar. Primeiro foram as bombas de São João que nós usamos para fazer pequenas demolições. Colocávamos as bombas nos pequenos buracos das paredes da fábrica, acendíamos, corríamos até chegar num lugar seguro e parávamos para ver a explosão produzir buracos enormes nas paredes. Depois vieram os pequenos furtos. A gente pegava trocados em toda e qualquer oportunidade. Depois gastava tudo em balas. As maldades com os animais pioraram. Enforcamos um gato um vez e depois tentamos colocar fogo em um cão usando gasolina. Gupta disse que tudo aquilo era uma preparação para fazer aquilo com um garoto. Eu olhei para ele e fiquei espantando em como eu era capaz de pensar naquilo. Se Gupta era apenas fruto de minha imaginação eu era um garoto mau pra valer. Ou então, Gupta era uma criança terrivelmente perturbada que não queria estar sozinho. Eu fiquei em dúvida e lhe respondi que não, que não era boa ideia. Ele passou dias e mais dias me perturbando com aquilo. Minha mente virou um turbilhão. Eu não dormia direito, tinha pesadelos e pensava: Tenho que apagar Gupta da minha mente. Tentei fugir dele, mas o encontrava na volta da escola, nas brincadeiras na rua e até mesmo no meu quarto. Estava deitado na minha cama olhando os aviõezinhos pendurados no teto, quando ele entrava súbito me chamando pra sair. Nessas horas minha mente virava um turbilhão. Ele estava ou ali ou era apenas fruto da minha imaginação? Numa manhã eu o encontrei na fábrica abandonada. Ele mesmo viera com Geninho e os apetrechos: gasolina e isqueiro. Eugênio ou Geninho, era um moleque que morava em frente a minha casa. Umas poucas vezes tínhamos brincado juntos. Inventamos de fazer uma fogueira. Ficara combinado que eu iria aspergir gasolina no garoto e Gupta usaria o isqueiro. Fiquei ali jogando coisas nas chamas, torcendo para que minha mente ou meu amigo não fizessem nada daquilo. Alguns minutos se passaram e eu já dava por resolvido aquilo quando ouvi as risadas de Gupta. Ele derramara todo o combustível em Geninho. O garoto, assustado, olhava para mim sem entender nada. Num impulso irracional, acendi o isqueiro e encostei no garoto ensopado de gasolina. O moleque acendeu e começou a gritar. Não foi nada parecido como nos filmes em que vemos um sujeito em chamas andando de um lado para outro balançando os braços. O garoto correu e ficou tentando abafar as chamas na parede mais próxima. Depois caiu no chão, rolou mais algumas mais vezes até o fogo se apagar. Isso não durou mais que um minuto. As chamava se foram, o garoto continuou gemendo por alguns instantes e depois parou. Corri para minha casa. Mas não demorou para que tudo fosse descoberto. Falei inúmeras vezes que a culpa era de Gupta, mas claro que ele não foi encontrado para receber o castigo por sua parcela de culpa. Como tinha apenas sete anos, os procedimentos foram outros. Fiz muita terapia, mas não me livrei do estigma de assassino. Mesmo que mudássemos de lugar, sempre alguém descobria meus feitos e tudo vinha à tona. Com o tempo acabei aceitando meu destino de assassino cruel e segui meu caminho. Gupta e eu voltamos a ser parceiros. Todos os dias eu agradeço a esse demônio que até hoje ajuda nos meus crimes. Tivesse alguém dito que essa coisa era uma criatura maligna real, eu não seria esse assassino cruel que sou hoje.

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