"Eu só escrevo as histórias!", gritou Carlo Moon enquanto o sujeito que comandava, puxou seu cabelo e apertou o cano da pistola contra seu rosto. Ele estava sentado em uma cadeira, os pés atados. A tortura já durava algumas horas e ameaçava entrar madrugada adentro. O chefe disse que ele iria morrer se não obedecesse. O outro elemento concordou com um movimento de cabeça. O terceiro invasor, pálido, sentado numa cadeira observava a tudo com ar desanimado. A coisa estava tensa e dava sinais de que podiam piorar. O escritor tentou explicar mais uma vez que não tinha poderes, não podia fazer nada que eles pediam, era tudo ficção. Os dois bandidos entreolharam-se. Houve um acordo comum sem palavras. Não acreditavam no homem. Ele estava só enrolando, tentando ganhar algum tempo e ia acabar pagando com a vida por causa disso. Fazer o quê? Era aquele infeliz que estava querendo o pior. Não custava nada ele pedir ajuda do além para curar o irmão do que o comandava. O rapaz estava morrendo, desenganado pelos médicos na flor da idade. Aquele escritor filho da puta sempre tivera tudo. Eles tinham se conhecido quando crianças. Mesmo bairro. Carlo Moon sempre fora o garoto mais rico da rua, vivia exibindo seus brinquedos e roupas caras. Quando adolescente montou uma banda de rock e ganhou todas as meninas do bairro. Para Esdras e Samuel, nada. Só a mãe religiosa que não obtinha do Deus que venerava, comida suficiente para a família. E ainda por cima tinham de ir à igreja, agradecer por nada. Carlo vivendo sem religião com camisas pretas de caveiras, cada vez mais próspero. Depois inventou de escrever histórias de terror. Fez um pacto com o bicho - dizia isso pra todo mundo - e começou a vender livros como garrafas de água mineral na praia. Rico, famoso, o maior escritor de histórias de terror do Brasil, um dos mais vendidos, comparado ao Stephen King. As porcarias dos livros traduzidos para várias línguas. Mudou-se para uma velha mansão com fama de assombrada num dos bairros mais ricos e antigos da cidade. Eu sou Carlo Moon que fala direto com as trevas, era seu dístico . Muita gente acreditava que tivesse poderes além do talento para escrever. Tinha de fato um pacto com o príncipe das trevas. Consolidou sua fama. Enquanto isso, Esdras e Samuel foram além no mundo do crime, roubos ousados, tráfico de drogas, assassinatos de aluguel. Pela primeira vez tiveram algum dinheiro na vida. Nem Deus e nem o Diabo ajudando em nada. Tudo por conta deles mesmos. Colocando a própria pele à prova. Escaparam de poucas e boas. E então veio a porcaria de um câncer raro e agressivo no irmão mais novo. Sem jeito. Mas havia uma chance: aquele escritor maldito que obtinha o que queria das forças sobrenaturais. Foi então que Esdras, o comparsa Vitinho e o irmão foram até a mansão e a invadiram. Não iriam roubar absolutamente nada, nem fazer mal a ninguém, a não ser que fosse extremamente necessário. Infelizmente o escritor estava dificultando as coisas. Esdras argumentou mais uma vez que não custava nada que ele curasse o irmão. Era algo que podia obter. Carlo olhou de Esdras para Vitinho. "Vocês tem noção do que estão pedindo? Isso é ridículo, caras. Esse lance de pacto com o capeta é puro marketing. É só pra vender livro, pelo amor de Deus, até católico eu sou!" Os invasores olharam um para o outro novamente. Esdras tomou a frente. "É o seguinte, não vou te matar logo, mas vou te moer em pedacinhos, cara... Quero ver se você não invoca o que quer que seja pra te salvar". O bandido sacou o canivete, se ajoelhou. "Vitinho, segura o braço dele... Isso, assim. Agora amarra. A mão espalmada... Assim porra!" Esdras começou a enfiar a ponta do instrumento debaixo das unhas do escritor. O homem começou a berrar. Gritou algumas vezes dizendo que não podia fazer nada, que eles eram malucos em acreditar em tais histórias. "Você vai fazer alguma coisa pelo meu irmão", gritava Esdras. Samuel a tudo observava com angustia. Segurava a pistola com o cano apontado para baixo, um joelho dobrado, pé sobre o estofado. Esperava impaciente que o homem cedesse. Era da opinião do irmão. Carlo Moon o ajudaria, ou morreria. "Peguem o que quiserem e vão embora, caras!", gritou o autor. "Ninguém veio aqui pra roubar", disse Vitinho. Esdras caprichou na tortura. O homem berrava de dor, se contorcia. O negócio continuou. Todas as unhas foram destroçadas, forçadas a sair do lugar. Carlo desmaiou algumas vezes, mas foi prontamente reanimado com copos de água gelada. Samuel que estava visivelmente debilitado, pareceu aborrecido. Ordenou que parassem. O irmão o olhou surpreso. Não era comum que lhe desse ordens. Samuel se levantou, a pistola sempre apontada para baixo. "Vamos acabar com isso", ordenou. "Tem uma coisa que todo mundo teme... Tira a roupa dele Vitinho". Os outros entenderam. Não houve hesitação. Rasgaram a roupa do escritor que parecia grogue naquele momento. Samuel se aproximou ainda mais. Apontou a arma para os testículos do homem. "Vai me ajudar ou não?" Em resposta Carlo cuspiu. Uma golfada de saliva e sangue. "Vão se foder!" Samuel piscou os olhos e disparou duas vezes. A genitália do homem foi despedaçada. Gritos, depois gemidos de uma dor absolutamente profunda. Esdras e Vitinho se afastaram um pouco. Apontaram suas armas. Samuel fez um sinal. "Só dois tiros no estômago. Ele vai demorar a morrer, sentindo muita dor!" Dois disparos. O escritor estremeceu e, embora parecesse impossível, gemeu ainda mais profundamente. Esdras guardou a arma. De repente ficou claro. Era ridículo terem acreditado que aquele homem tinha pacto com o Diabo, poderes sobrenaturais. Era só um escritor de merda que encontrara um público cego e fiel como os fãs do Paulo Coelho. Mas não se arrependia de nada. Bem feito para aquele idiota metido deixar de ser mentiroso. Por 3 dias os homens esperaram em vão por manchetes da morte do escritor famoso. Não houve notícias. Ficaram tremendamente assustados quando viram uma entrevista com Carlo Moon curtindo férias e falando sobre seu próximo livro. "Esse novo livro tem uma narrativa um tanto policial. É sobre 3 homens que invadem a casa de um escritor de histórias de terror e tentam obter deles favores por acharem que ele tem poderes sobrenaturais... " falava o escritor em uma praia do Caribe. Esdras olhou para o irmão exibindo um ar de pura surpresa. "Que porra". Dali a dois dias a polícia chegou na casa dos irmãos com Vitinho algemado. "Vocês estão presos", disse o policial. "Roubo e tráfico!" Mas os homens não foram para nenhuma delegacia. Após cruzarem a cidade, desceram algemados as escadarias de um porão de uma velha casa. Havia uma música estranha, um coro demoníaco. Lá embaixo, foram sentados e tiveram os braços e mãos amarrados. "Bem, rapazes, isso vai demorar", disse o policial e se afastou. Uma figura vestida de preto, usando um chapéu estranho se aproximou. "Acharam que podiam ficar impunes? Vou lhes ensinar o que é tortura." Olhou para Samuel. "Vou atender seu pedido, tirar esse câncer de você", disse, pegou uma enorme faca e começou a cortar a barriga do homem. Os berros sobressaíram aos cânticos fúnebres que ecoavam. Eu sou Carlo Moon que fala direto com as trevas, disse a figura escura.

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