Eu
tinha 25 anos quando fui morar sozinho. Acabara de sair da faculdade e
conseguira um bom emprego num famoso escritório de advocacia. Lá eu ia aprender
com os melhores e teria imensas chances de ser um grande advogado. Confesso que
tudo vinha da assistência do meu pai e de uns tios que tinham uma larga
tradição em direito na cidade. Talvez foi exatamente por isso, essa ajuda
presente em todos os estágios da minha vida, que fez aumentar o meu desejo de
ir morar sozinho. E num lugar que minha família tradicional e super protetora
não aprovava. Eu ganhava um bom dinheiro, mas não era ainda suficiente para
pagar o aluguel de uma casa num dos bairros mais nobres da cidade. Para mim era
tranquilo viver numa pequena e simpática casa na periferia. Meus familiares
foram contra, se ofereceram para ajudar no aluguel de uma moradia melhor, mais
bem situada. Não aceitei. Disse que eles tinham me ajudado a vida toda e eu
queria agora galgar os degraus da vida sem segurar na mão de ninguém. Eles já
tinham feito muito. Eu era grato, mas queria mudar as coisas. “Esse emprego no
escritório é representa muito, me deixem andar com minhas próprias pernas a
partir de agora”, eu disse. Meu pai disse que entendia. Minha mãe fez um ar
insatisfeito. Meu tio sorriu e deu uns tapinhas nas minhas costas. “Dá-lhe,
garoto! Você sabe o que tá fazendo! ” Eu sempre tivera uma vida privilegiada,
tinha reconhecido e dado valor aquilo tudo, era extremamente grato e achava que
tinha recebido mais que o suficiente. A maior preocupação da minha mãe era
porque eu estava indo para um bairro mal afamado, violento e repleto de
traficantes. “Você não vê como as coisas estão? ”, indagava minha mãe com uma
expressão que fazia a testa dela ficar toda franzida. Disse que estava
decidido. As discussões acabaram e eu me mudei. Lembro que me sentia muito eufórico,
senhor do meu destino. Levamos minhas poucas coisas para nova casa e eu comecei
a me estabelecer. Digo nova casa, me referindo à novidade de morar sozinho, mas
a casa em si era um tanto antiga. Não que estivesse caindo aos pedaços, era
muito bem conservada por sinal. Simples e bem estruturada, pintura nova e tudo
mais. Na primeira noite lá, eu fiquei acordado até tarde estudando alguns
papéis, adiantando coisas do trabalho. Tomei uma taça de vinho e me deitei no
carpete recentemente colocado. Recordo que a sala era o único cômodo
devidamente organizado naquela primeira noite. Ouvi alguns urros estranhos, mas
não dei atenção a isso. Estava muito cansado e acabei dormindo ali mesmo. A
semana se passou e durante esse tempo eu dormi na sala. Depois do primeiro
final de semana, deixei tudo em ordem e dormi a primeira noite no quarto, o
quarto principal que ficava na parte frontal da casa. Ouvi mais claramente os
urros, pouco antes de dormir. Escutava esses urros intercalados por latidos de
cães, vozes de pessoas que passavam pela rua, sons dos poucos automóveis – era
uma rua estreita, pouco movimentada; de maneira que não dei atenção. Na outra
noite, chamei uns amigos para uma pequena festinha. Fui dormir às 4 da manhã um
tanto leve por causa do vinho, mas lembro, claramente que nessa noite dei mais
atenção aqueles sons estranhos antes de dormir.
Então aquilo se tornou rotina.
Sempre antes de dormir eu ouvia urros, gemidos agudos que se estendiam
indefinidamente. Eu sentia que havia algo de estranho naquilo, mas sempre
tentava ignorar. Uma noite sonhei que entrava na minha casa um monstruoso cão
negro de olhos vermelhos. O bicho não latia nem rosnava, apenas emitia os urros
que eu costumava ouvir quando deitava na cama à noite. Aquela coisa partia para
cima de mim e eu me encolhia todo em atitude de defesa. Acordei num susto quase
igual aquelas cenas que vemos em filmes quando o sujeito acorda em sobressalto,
suado e ofegante. Tentei me acalmar e disse a mim mesmo que tudo não passava de
um sonho. Foi aí que eu ouvi claramente aqueles urros que estavam terríveis
como nunca naquele momento. Pela primeira procurei a fonte daqueles sons.
Levantei, fui até a janela, abri as persianas e olhei para fora. A vista era
bastante limitada: via meu jardim com algumas poucas plantas e parte da rua
depois do portão. Tive a impressão de que o som vinha da rua, não era algo que
estivesse trancando em algum lugar.
Num
dia pela manhã interpelei um vizinho sobre aquele barulho. Ele disse não ter
ouvido nada. Estranho era que ele morava bem ao lado da minha casa. “Desde a
primeira noite que dormi aqui que escuto isso”, falei. O sujeito me olhou
confuso. “Talvez seja um cachorro de rua”, ele supôs fazendo um ar
condescendente que indicava que era óbvio que ele não estava interessado
naquele assunto. As noites seguiram e sempre antes de dormir aquilo me
atormentava. Tentei de várias maneiras ignorar aquilo: leituras, programas de
TV, celular, computador, mas minha mente sempre se voltava para aquele barulho
infernal. Não queria muito admitir, mas aquilo causava algo estranho em mim e
eu não sabia dizer o que era. Não era somente o som, pois o mesmo não era alto
a ponto de impedir o sono. Ouvir aquilo, mesmo que em um tom menor já era
exasperante. Digo isso com toda a certeza porque dormi nos outros quartos e a
perturbação era a mesma. Mas o que era um persistente, intenso e curto incomodo
– isso durava até eu conseguir dormir -
aumentou e, os quinze vinte minutos antes de dormir ouvindo aquilo, se
prolongou para uma hora, duas... Três. Meu tempo de sono foi diminuindo. O
tormento atrasando o sono e se intercalando entre ele, ou seja, eu demorava a
dormir e depois acordava por causa dos urros e não dormia mais. Algo que de
início não tinha acontecido

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