Eu
tinha nove anos de idade, mas lembro bem. Nós morávamos numa cidade pequena e
tranquila.
Tão pequena e tranquila que continua praticamente do mesmo jeito
após esses trinta anos. Não que eu ainda a visite, não posso fazê-lo. Mesmo
sabendo pelas pessoas que lá vivem, que é um lugar absolutamente tranquilo,
para mim é uma cidade de fantasmas. São cinco pelo menos. Tudo começou quando
um garoto da minha rua foi encontrado morto num descampado. Havia sinais de
tortura e outras coisas que os adultos evitavam falar na minha frente, na
frente das outras crianças. Depois o mesmo aconteceu a outro garoto. Encontrado
sob alguns arbustos, próximo a um campo de futebol. A terceira vítima era um
garoto que eu conhecia bem. Acho que devo ter sido a última pessoa a vê-lo... E
tenho quase certeza de que eu podia ter sido a vítima no lugar dele. Nós
tínhamos sido os últimos a ficar em uma pracinha brincando nos velhos balanços com
tinta descascando. Eu fui embora e ele disse que ia ficar mais um pouco. Eram
pouco mais de dez da manhã. E nem o mais exagerado dos pais podia imaginar
alguém fazendo mal a crianças sob aquela luz do dia. Isaque sumiu e só foi
encontrado uma semana depois, em um matagal na entrada da cidade. Dessa vez os
pais, descontrolados, comentaram na frente das crianças as coisas horríveis que
tinham sido feitas. O menino fora queimado por cigarros, amarrado pelos pés e
mãos, cortado, sodomizado e depois enforcado. A pequena cidade ficou em pânico.
Ninguém lembrava de alguém que tivesse morrido de morte violenta naquele lugar.
O caso mais terrível tinha sido de um vaqueiro por conta de uma queda de
cavalo, anos atrás. Tão incomum quanto os crimes, era a presença de dois homens
recentemente chegados a cidade. Eles tinham vindo pouco antes do primeiro
desaparecimento, suscitando conversas sobre o seu modo de vida que causava
indignação nos homens e ruborização nas mulheres. Como assim eles não são
irmãos? São o quê?! Falavam os mais indignados Após a morte de Isaque, boatos e
rumores se voltaram contra os supostos pervertidos da cidade. Não demorou para
que acusações públicas começassem a ser feitas. E então, numa noite, um grupo
de pais exaltados, foi até a casa dos homens e os prendeu. Eles foram trazidos
até o nosso terreno, imenso naquele tempo. Ali foram julgados, condenados e
executados. Eu vi tudo pelas venezianas da janela do meu quarto, anônimo. Nunca
poderei esquecer seus gritos, seus rogos por misericórdia e a maneira como se
debateram ao serem erguidos pelo pescoço, enforcados sob a luz da luz e o
silêncio acusador do grupo liderado por meu pai. Depois os corpos foram
queimados. Alguns meses depois, na cidade vizinha, um maníaco foi preso por ter
raptado um garotinho. A polícia conseguira se antecipar, seguindo seu rastro,
libertando o menino a tempo! O homem confessaria seu rastro de crimes. O
silêncio sobre os dois homossexuais continuou. Eu olhava para o meu pai e era
incapaz de pensar noutra coisa que não aquele assassinato. E isso durou anos
Ele nunca falou sobre o caso. Faleceu sem arrependimentos aparentes. Eu, sentia
vergonha, mesmo sem culpa alguma. Na primeira oportunidade, deixei aquela cidade
para não mais voltar. Para mim, apesar de pacata, representa apenas: fantasmas,
injustiça, preconceitos e ódios soterrados.
Nenhum comentário:
Postar um comentário