terça-feira, 20 de agosto de 2019

NEGLIGENTE (Conto de terror)

Os dois policiais se surpreenderam grandemente ao ver o rapaz nu e cambaleante pela rua naquela
tranquila manhã. Se entreolharam e, sem dizer nada, saíram quase ao mesmo tempo da viatura. Hesitantes, cercaram-se do rapaz que os olhou lentamente, revelando estar sob efeito de álcool ou alguma outra droga. Talvez um misto dos dois. Afinal nada era demais para a juventude. Nunca se sabia que tipo de surpresa tosca ou desagradável os jovens proporcionariam. “Que aconteceu, rapaz? ” Perguntou o policial mais velho. O rapaz o encarou como se não tivesse entendido o que ele havia dito. “Que foi que houve? ” O outro policial perguntou. O jovem disse algo ininteligível revelando ainda mais seu estado alterado. O policial mais velho balançou a cabeça, voltou-se para o parceiro e sugeriu que ele talvez tivesse sido drogado e roubado. O outro concordou com a possibilidade. O rapaz estava nu, as mãos à frente, escondendo a genitália, ombro encostado no muro. Ele voltou a falar e disse coisas incompreensíveis, mas o que chamou a atenção foi o fato de fazer indicações, revezando nos gestos e a proteção ao próprio sexo. Parecia indicar um lugar e fazia isso com uma estranha expressão no olhar. Os homens ficaram conversando, especulando sobre o que o jovem podia estar indicando. “Ele tá indicando algo. Será que é onde foi roubado?” Se perguntou o policial mais velho. O outro se aproximou ainda mais do rapaz e falou pausadamente: “O-que-a-con-te-ceu-e-xa-ta-men-te-com-vo-cê?” Talvez assim ele pudesse entender e dar uma resposta mais clara. O jovem repetiu os gestos e falou coisas que não deu pra entender. O policial mais novo teve a impressão de que ele estava falando em outra língua. Fez outras perguntas pausadas, mas não houve progresso. “Isso não tá funcionando...” O policial mais velho pediu calma. Conduziu o rapaz para dentro da viatura, para a parte detrás, como um prisioneiro. “O que vai fazer?” quis saber o policial mais jovem. Seu colega explicou que iam leva-lo pelo caminho indicado, talvez pudessem entender o que tinha acontecido. Qualquer coisa, o levariam para a delegacia. Apesar da situação, o rapaz pareceu mais tranquilo. Em poucos minutos, os homens da lei pararam diante de um prédio. Conduzidos pelo jovem, que parecia nervoso ou excitado, os homens entraram e subiram alguns lances de escada. O policial mais jovem parecia preocupado, mas seu parceiro estava bastante tranquilo e disse apenas para o outro ficar atento, nada mais. Só iam esclarecer aquela história. Pararam diante da porta de um apartamento. O rapaz algemado fazia indicações ainda mais veementes e parecia assustado. O policial mais velho bateu à porta. Um homem alto e loiro surgiu na porta. Pareceu surpreso, ainda mais ao ver o rapaz ali, quase se escondendo atrás dos homens da lei. A história toda foi contada. “Os senhores queiram desculpar a mim e meu parceiro”, iniciou o homem do apartamento. “Nós somos amantes, estávamos bebendo, depois fomos fazer umas brincadeiras... A coisa não saiu bem e começamos a brigar. E ele fugiu. Como podem ver tão bêbado que deixou as roupas!” O policial mais velho olhou para o colega com ar jocoso. “Amantes? Brincadeiras?” Os dois homens da lei se esforçaram para não rir. Tudo fora esclarecido e apesar daquela perversão, estava tudo bem. Os policias gentilmente conduziram o jovem ao namorado, mas este pareceu assustado. Falou outras coisas ininteligíveis. Descendo as escadas, os policiais começaram a rir. “Dois anormais!” Disse um. “Pelo menos fizemos a boa ação de reunir os pombinhos”, disse o outro e riu ainda mais. Enquanto isso, no apartamento, o jovem nu era estrangulado até a morte pelo homem loiro. “Agora você não me escapa!” Depois este fez sexo com o cadáver do rapaz, o cortou em partes, comeu sua carne nas semanas seguintes e guardou sua cabeça como um troféu.

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