Foi
depois de uma festa que Fernando começou a ver coisas estranhas nos rostos das
pessoas. Ficou pensando se não fora o efeito da bebedeira. Só Deus sabia o que
tinha ingerido no meio da empolgação. Talvez alguém até lhe tivesse oferecido
alguma coisa com alguma droga nova e temerária. Era uma juventude doida e
inconsequente. Fernando percebeu aquele fenômeno visual no outro dia pela
manhã, ao descer até a recepção do seu prédio. O rosto do homem da portaria
parecia distorcido, flácido além das possibilidades anatômicas. E assim foi com
algumas pessoas que viu a caminho do trabalho e lá no banco, no rosto de
colegas e clientes. Não falou nada para ninguém e esperou que até o fim do dia
aquilo passasse. Se for algo no meu sangue, logo isso acaba. Mas no outro dia,
a coisa continuou, parecia até pior e Fernando começou a ficar preocupado. Foi
ao oftalmologista que escutou tudo com expressão confusa. Como assim, só no
rosto? Só com algumas pessoas? `Perguntou. Após os exames, nada foi constatado.
Mas realmente não fazia sentido que fosse um problema de visão, pois ele
enxergava normal, era apenas a face das pessoas que estava diferente. E nem
todas. De relance, via o rosto normal, reconhecia-os, logo depois, na segunda
olhada, via a mudança. A cara de muita gente ao seu redor despencava,
tremulava, tomava formas impossíveis, ficava prestes a escorrer, se recompunha
e voltava a se alterar. Nada além disso, mas começou a ficar perturbado além do
suportável. Que era aquilo? E por que uns sim e outros não? Indagava Fernando.
Buscava lembrar da noite de bebedeira, do que fizera. Nada. Via no espelho seu
rosto tal como era. Contou isso para um amigo que riu. Sentiu-se solitário em
sua desgraça. Recorreu a diversos gurus... Até mesmo um pastor metido à
exorcista. Não houve êxito. Fernando pediu licença no trabalho e quando não
conseguiu justificar o pedido, começou a falta-lo. Passava os dias trancado,
bebendo. Quando saía para renovar o estoque de bebidas, conferia no rosto das
pessoas o problema. O tormento continuava. Apesar de em outros aspectos, as
coisas não terem mudado, Fernando não conseguia se resignar. As vezes pensava
que poderia viver com aquilo sem maiores preocupações, mas simplesmente não
conseguia. Cogitou mesmo até em tirar a própria vida. Desistiu e seguiu
tentando ainda compreender aquela situação. Percebeu duas coisas: que as formas
tortas começaram a mudar e que as pessoas que conhecia de rosto alterado,
tinham algum problema de caráter. Ficou ainda mais atento, vendo que as mudanças
das faces adquiriam formatos bastante monstruosos. Viu rosto sobre rosto, um
satânico e outro humano. Não demorou a constatar que as pessoas deformadas
tinham demônios em suas vidas. E era simplesmente isso.domingo, 14 de abril de 2019
ROSTOS DERRETIDOS (Conto de terror)
Foi
depois de uma festa que Fernando começou a ver coisas estranhas nos rostos das
pessoas. Ficou pensando se não fora o efeito da bebedeira. Só Deus sabia o que
tinha ingerido no meio da empolgação. Talvez alguém até lhe tivesse oferecido
alguma coisa com alguma droga nova e temerária. Era uma juventude doida e
inconsequente. Fernando percebeu aquele fenômeno visual no outro dia pela
manhã, ao descer até a recepção do seu prédio. O rosto do homem da portaria
parecia distorcido, flácido além das possibilidades anatômicas. E assim foi com
algumas pessoas que viu a caminho do trabalho e lá no banco, no rosto de
colegas e clientes. Não falou nada para ninguém e esperou que até o fim do dia
aquilo passasse. Se for algo no meu sangue, logo isso acaba. Mas no outro dia,
a coisa continuou, parecia até pior e Fernando começou a ficar preocupado. Foi
ao oftalmologista que escutou tudo com expressão confusa. Como assim, só no
rosto? Só com algumas pessoas? `Perguntou. Após os exames, nada foi constatado.
Mas realmente não fazia sentido que fosse um problema de visão, pois ele
enxergava normal, era apenas a face das pessoas que estava diferente. E nem
todas. De relance, via o rosto normal, reconhecia-os, logo depois, na segunda
olhada, via a mudança. A cara de muita gente ao seu redor despencava,
tremulava, tomava formas impossíveis, ficava prestes a escorrer, se recompunha
e voltava a se alterar. Nada além disso, mas começou a ficar perturbado além do
suportável. Que era aquilo? E por que uns sim e outros não? Indagava Fernando.
Buscava lembrar da noite de bebedeira, do que fizera. Nada. Via no espelho seu
rosto tal como era. Contou isso para um amigo que riu. Sentiu-se solitário em
sua desgraça. Recorreu a diversos gurus... Até mesmo um pastor metido à
exorcista. Não houve êxito. Fernando pediu licença no trabalho e quando não
conseguiu justificar o pedido, começou a falta-lo. Passava os dias trancado,
bebendo. Quando saía para renovar o estoque de bebidas, conferia no rosto das
pessoas o problema. O tormento continuava. Apesar de em outros aspectos, as
coisas não terem mudado, Fernando não conseguia se resignar. As vezes pensava
que poderia viver com aquilo sem maiores preocupações, mas simplesmente não
conseguia. Cogitou mesmo até em tirar a própria vida. Desistiu e seguiu
tentando ainda compreender aquela situação. Percebeu duas coisas: que as formas
tortas começaram a mudar e que as pessoas que conhecia de rosto alterado,
tinham algum problema de caráter. Ficou ainda mais atento, vendo que as mudanças
das faces adquiriam formatos bastante monstruosos. Viu rosto sobre rosto, um
satânico e outro humano. Não demorou a constatar que as pessoas deformadas
tinham demônios em suas vidas. E era simplesmente isso.
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