domingo, 14 de abril de 2019

ROSTOS DERRETIDOS (Conto de terror)


Foi depois de uma festa que Fernando começou a ver coisas estranhas nos rostos das pessoas. Ficou pensando se não fora o efeito da bebedeira. Só Deus sabia o que tinha ingerido no meio da empolgação. Talvez alguém até lhe tivesse oferecido alguma coisa com alguma droga nova e temerária. Era uma juventude doida e inconsequente. Fernando percebeu aquele fenômeno visual no outro dia pela manhã, ao descer até a recepção do seu prédio. O rosto do homem da portaria parecia distorcido, flácido além das possibilidades anatômicas. E assim foi com algumas pessoas que viu a caminho do trabalho e lá no banco, no rosto de colegas e clientes. Não falou nada para ninguém e esperou que até o fim do dia aquilo passasse. Se for algo no meu sangue, logo isso acaba. Mas no outro dia, a coisa continuou, parecia até pior e Fernando começou a ficar preocupado. Foi ao oftalmologista que escutou tudo com expressão confusa. Como assim, só no rosto? Só com algumas pessoas? `Perguntou. Após os exames, nada foi constatado. Mas realmente não fazia sentido que fosse um problema de visão, pois ele enxergava normal, era apenas a face das pessoas que estava diferente. E nem todas. De relance, via o rosto normal, reconhecia-os, logo depois, na segunda olhada, via a mudança. A cara de muita gente ao seu redor despencava, tremulava, tomava formas impossíveis, ficava prestes a escorrer, se recompunha e voltava a se alterar. Nada além disso, mas começou a ficar perturbado além do suportável. Que era aquilo? E por que uns sim e outros não? Indagava Fernando. Buscava lembrar da noite de bebedeira, do que fizera. Nada. Via no espelho seu rosto tal como era. Contou isso para um amigo que riu. Sentiu-se solitário em sua desgraça. Recorreu a diversos gurus... Até mesmo um pastor metido à exorcista. Não houve êxito. Fernando pediu licença no trabalho e quando não conseguiu justificar o pedido, começou a falta-lo. Passava os dias trancado, bebendo. Quando saía para renovar o estoque de bebidas, conferia no rosto das pessoas o problema. O tormento continuava. Apesar de em outros aspectos, as coisas não terem mudado, Fernando não conseguia se resignar. As vezes pensava que poderia viver com aquilo sem maiores preocupações, mas simplesmente não conseguia. Cogitou mesmo até em tirar a própria vida. Desistiu e seguiu tentando ainda compreender aquela situação. Percebeu duas coisas: que as formas tortas começaram a mudar e que as pessoas que conhecia de rosto alterado, tinham algum problema de caráter. Ficou ainda mais atento, vendo que as mudanças das faces adquiriam formatos bastante monstruosos. Viu rosto sobre rosto, um satânico e outro humano. Não demorou a constatar que as pessoas deformadas tinham demônios em suas vidas. E era simplesmente isso.

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