domingo, 14 de abril de 2019

O DEMÔNIO NO ESPELHO (Conto de terror)

Quando criança, William ficou tão impressionado com histórias de terror que decidiu dedicar sua vida ao lado obscuro. E o fez, mas não como simples hobby ou interesse por narrativas de filmes e livros. Tornou rebelde e inconsequente muito jovem. Voltou-se a tudo que acreditava agradar ao demônio, desde atitudes heréticas, atos subversivos e crimes. Sim, crimes! Roubo, extorsão, agressões, abusos sexuais e em certa ocasião, auxiliou um amigo num assassinato. Se não matou alguém com as próprias mãos, fora simplesmente por não ter encontrado situação propícia. Intento que ansiava realizar em breve. Projetava matar alguém em um ritual para que pudesse contatar o próprio demônio para obter favores. Mesmo não sendo um homem de muita leitura, William procurou em livros, a orientação para invocar o demônio. Tentou vários que não deram em nada. Com o advento da internet, mergulhou no mundo das creepy pastas, mas, apesar da desatinada imaginação, considerou tudo de caráter duvidoso e pouco prático. Cada vez mais se convenceu de que somente através de um sacrifício humano poderia se encontrar com, segundo sua própria denominação, o maioral. Dedicou-se com mais empenho aos crimes visando uma situação financeira mais confortável. Estabelecido em seu barraco, buscou selecionar uma vítima. Por algum tempo pensou em atrair uma de suas ex parceiras sexuais para consumar seu objetivo, mas acabou desistindo. Eram mulheres conhecidas do submundo que, embora não fizessem falta a muita gente, podiam ser facilmente associadas a ele. Ele era bem conhecido pela polícia e qualquer indicação traria as autoridades a sua moradia. Não só haveria indícios do crime, como no barraco tinha todo tipo de contravenção que se podia imaginar. De drogas, cartões de créditos e objetos roubados, à armas. Não queria voltar para cadeia de maneira alguma. Resolveu o impasse usando como sacrifício um travesti do baixo meretrício, novo na área. Com sua fama de machão, dificilmente alguém espalharia o boato de o terem visto com um homossexual. Matou o jovem à facadas, usou seu sangue para desenhar no chão um pentagrama e ficou ali pelo resto da noite chamando o Diabo. Acreditava que dessa maneira simples e direta, teria êxito, mas nada aconteceu. Experimentou um terrível sentimento de frustração enquanto cortava o corpo da vítima, arrumava tudo num saco para jogar córrego abaixo. Sentiu isso não por empatia ou arrependimento do crime que cometera, mas pelo simples fato de ter tanto trabalho e sujar as mãos. Continuou suas atividades criminosas, lamentando a distância do demônio e do que poderia obter dele. Um dia, conheceu um velho que lhe disse que poderia contatar o maioral chamando-o diante do espelho no escuro, às três da madrugada. Mesmo sem entusiasmo, William o fez. Em dado momento, percebeu que sua imagem no espelho começou a mudar. De uma hora para outro, um rosto de olhos imensos, semelhantes a olhos de cobra, pele avermelhada e escamas surgiu. O demônio começou a falar e para provar sua presença, mudou sua imagem, primeiro para o de uma mulher bonita, depois para o do travesti assassinado. Após isso, indicou um lugar para um roubo espetacular. No outro dia, o marginal, profundamente empolgado, se jogou na empreitada com um parceiro, mas foi detido sumariamente. Na sua cela, refez o ritual então o demônio surgiu mais uma vez. Disse: Sempre estive dentro de você, não precisava procurar em outro lugar. Sempre estive contigo, de graça! Por que então eu deveria lhe dar algo em troca? William ficou desconsolado, talvez por isso nem reagiu 

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