domingo, 14 de abril de 2019

CONFISSÕES DE UM DEMÔNIO (Conto de terror)


Tomou mais um gole de aguardente e acendeu o charuto e ficou olhando o demônio. De uma forma indefinida de fumaça, ele trasmudou em um ser semelhante a um rato. “O que mais espanta saber sobre nós é que temos muitas coisas em comum com os seres humanos... Procuramos a satisfação e evitamos o sofrimento. Apesar de não sermos feitos de carne e osso, podemos experimentar prazeres e padecimentos como qualquer pessoa... Claro que a coisa é diferente, mas é bem semelhante... Que mais quer saber?” O homem soltou a fumaça e perguntou quais eram os prazeres preferidos por eles... “Ora, a gente se alimenta da energia emanada por certos atos. Muitas das coisas que chamam pecados, embora o que a maioria pense ser pecado, de fato nem seja. Em geral, a depravação das pessoas está no topo das nossas alegrias. Quanto mais conseguimos controlar isso, maior é o prazer...” “Vocês gostam de possuir os corpos das pessoas?” “Não! Definitivamente, não! Isso é uma falácia do cinema, dos livros e de igrejas espalhafatosas! Nós gostamos de possuir almas! Corpos? São apenas matéria inferior. Esse lance de gente falando grosso, se retorcendo e virando os olhos em geral é doença mental ou teatro. Se um demônio pudesse estar dentro de uma pessoa porque escolheria o zé ninguém da periferia de Bangladesh e não o presidente dos EUA para em seguida mandar bombardear o mundo todo? Nossa busca é por influência, nunca conseguimos de fato habitar o corpo de ninguém... Não que o presidente dos EUA não tenha demônios ou qualquer outro líder, mas é de fora para dentro que agimos e não o oposto, além do que isso é limitado. Não dá pra eliminar totalmente a liberdade de alguém...” O homem então perguntou súbito: “Então não existem casos reais de possessão?” Alguns são reais, sim... Uns tolos que forçam entrada e acabam causando aquele conflito que resultam em problemas mentais, transtornos. Não é nada útil. Serve apenas de espetáculo. Mas asseguro...” E nessa hora a criatura exibiu a pata em riste. “Difícil que haja um ser humano que consiga afastar um demônio, por mais idiota e leviano que este demônio seja. O maioria de nós não gosta muito dessa prática... Ainda mais quando, digamos Lúcifer, leva a fama de estar ali pessoalmente atrás de possuir um estúpido qualquer. Isso tudo não passa de bobagem. Os demônios que se ocupam nisso são ridicularizados pelo outros.” “Então o lance de vocês é estar perto e influenciar?” Por um instante a imagem do demônio variou de ser semelhante a rato numa criatura ainda mais indefinida. Havia algo de instável naquilo. “Sim. E creio que você sabe disso. Assim como sabe que há algumas pessoas que não precisam de qualquer influência. Como você por exemplo!” O homem riu bastante. “Você parece receoso”, disse. “Sim”, falou o demônio. “A natureza desses seus assassinatos é surpreendente... Mesmo para mim.” Olhou em volta com ar compenetrado para os restos mortais, sua forma variando, prestes a virar fumaça. “Isso chega a fazer alguns demônios parecerem filhotes de gazela!”

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