domingo, 16 de dezembro de 2018

SÓCIOS INFERNAIS (Conto de terror)

Ele acorda no meio da noite extremamente assustado. Tem a impressão imediata de que há algo errado. Se ergue de seu leito só de papelões. Não tivera tempo para conseguir uma cama de verdade. Claro que não. Agora tem que conferir tudo, talvez até pegar em alguma arma para se defender. Olha em volta, mas com a limitada iluminação das luzes da rua é difícil ver alguma coisa. Fica parado pensando se deve ou não acender a lâmpada do quarto. Chamar a atenção à toa ou se expor tão subitamente, não seria nada perspicaz. Espera mais uma pouco. Não escuta nada além dos sons comuns da noite. Tudo normal. E ela? Estaria bem? Melhor conferir. Eram somente os dois naquela função. Mas era bom também ver a guarda, a defesa, o bicho lá embaixo. Levanta-se devagar no escuro. Tinha todo tipo de inimigo. Anda devagar, fazendo o mínimo de barulho possível. Acha melhor pegar a pequena lanterna, a que é um chaveiro, excelente para ocasiões como aquela. Ligar a lâmpada seria mesmo imprudente. Tateia no cantinho da parede. É lá que colocou as coisas. As armas, faca, a pistola. Acha as chaves, onde está a pequena lanterna, mas isso faz barulho, coisa que o irrita. Aperta as chaves todas juntas na mão para não tilintarem mais. Acende a pequena lanterna e se espanta por iluminar muito. Mas claro, nem devia se admirar. Estava muito escuro, qualquer coisa faria uma enorme diferença. Até um fósforo. Ilumina a metade do quarto, movimenta devagar o foco em direção a ela. Com cuidado, se estiver dormindo não gostaria de desperta-la. A borda da luz encontra parte do corpo deitado, caído lá. Que bom que não foi o rosto logo, certamente ela iria acordar com a luz nos olhos. Ilumina somente até seu ventre. Para e observa o movimento, a respiração regular. É uma bela visão, sua pele tenra, seu corpo. Apenas uma calcinha branca. Inocente, pura, o que a fazia perfeita para o propósito. Fica um tempo observando a barriga dela subindo e descendo num ritmo próprio. Isso era bom. Não achava que ela estivesse fingindo. Provavelmente dormira mesmo. Tinha passado por coisas terríveis e outras piores viriam ainda. Estava se sentindo absolutamente sereno com esse pensamento quando o barulho lá embaixo chama sua atenção. Muda rapidamente o foco da lanterninha, se dirige até a porta com passos silenciosos e mais rápidos possíveis. No caminho apanha a arma. Apesar de confiar na guarda, não deve descer desprevenido. Cruza o corredor, chega as escadas, vai descendo pé ante pé com ansiedade e determinação. Pode ser a polícia, algum parente da menina. Um anjo? Vai haver sangue, pensa. Mas já está decidido. Há muito tempo, desde que adentrara àquela vida. Trata de erguer a arma. Confiava na guarda, mas, nunca se sabia, não era? Se aproxima da sala com cautela. Ilumina os cantos, a porta da frente. Tudo está em ordem. Se sente relaxado totalmente desde que acordara. Tudo está em ordem. A porta devidamente trancada. E a guarda operante como sempre. O imenso demônio animalesco, metade cão, metade réptil. Um presente das trevas, um auxiliar valoroso. Por vezes ficava fora de controle e arrancara dedos de um ou outro, mas era normal. Qualquer cachorro mordia o dono uma vez ou outra, que se podia dizer de uma criatura dos infernos? Fazia parte de todo o pacote negociado com o próprio Lúcifer. Vidas e sangue para ele, exatamente como a menininha sequestrada, presa lá em cima. Em troca de poder, boas vendas de drogas, dinheiro, crias do inferno – que estranhamente duravam só um mês, mas facilmente substituídos – e todas as coisas que acompanham os pactos que se faz com as trevas. Até mesmo uma noite de vigília com uma sequestrada naquele barraco imundo como aquele. Amanhã seria melhor, pensa enquanto passa a mão na criatura. Uma pessoa comum morreria do coração só em ver aquela besta.

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