Rafael Silva, conhecido na internet como
Ra Fear gozava de certa fama com os vídeos que ele e um amigo faziam sobre
lugares supostamente assombrados. Sua mais famosa filmagem, o casarão da água
verde, tinha pouco mais de duzentos mil acessos. Isso era suficiente para o
rapaz pousar de subcelebridade entre os conhecidos sem maiores questionamentos.
Rafael estava sempre procurando lugares supostamente assombrados para explorar.
Junto ao amigo, Ednardo, conhecido como Eddie. Além do casarão da água verde,
aventura mais dispendiosa da dupla, eles tinham ido a uma casa onde
supostamente vivera um canibal, cujo fantasma diziam aparecer em noites de
sexta feira. Invadiram um cemitério tarde da note para filmar, visitaram as
ruínas de um hospital psiquiátrico, e uma chácara abandonada com a fama de
abrigar outros tipos de duendes e almas penadas. Além de meia dúzia de outros
lugares famosos por aparições. Rafael e Ednardo, de verdade, nunca registraram
de fato algo incrível, mas compensavam isso com um programa de efeitos
especiais. Nada muito exagerado para não ficar óbvio a simulação, mas sombras
sutis, silhuetas quase indetectáveis no fundo do vídeo além de efeitos sonoros,
garantiam um material curioso e com público certo na quase infinita Surface. O
último trabalho deles, porém contém algo escabroso, ainda não explicado
totalmente. E não é fruto da engenhosidade ou criatividade dos rapazes, isto é
certo. Rafael e Ednardo, ou, como gostavam de ser conhecidos, Ra Fear e Eddie,
pegaram seus equipamentos, suas motos e se aventuraram a ir fazer imagens de
uma pequena residência abandonada nos limites da cidade. Diziam que a casa
tinha fantasmas e era assombrada desde que fora construída. A fama, explicavam
os rapazes no início do material encontrado, se dava porque que o lugar fizera
parte de uma imensa fazenda do século XVII que tinha inúmeros escravos. Segundo
os rapazes, que fizeram razoável pesquisa sobre o lugar, a casa ficava
justamente onde era o pelourinho. Onde incontáveis escravos haviam encontrado a
morte através de suplícios terríveis. A reconstituição, baseada no material dos
rapazes, indica que eles chegaram ao local por volta das dez da noite. Fizeram
uma prévia do ambiente, filmando diversas panorâmicas e depois começaram a
fazer imagens do perímetro da casa. Nesse momento percebemos os rapazes falando
de barulhos inaudíveis (que se supõe seriam introduzidos na edição do material)
e repetindo frases de efeitos. Nesse momento fica claro que Rafael e Ednardo
produziam filmagens básicas para depois manipular à vontade no computador.
Depois segue-se imagens no interior dos restos da casa. Com excelente material
de iluminação podemos ver os detalhes dos cômodos, o que causa estranheza são
os movimentos do cinegrafista. São súbitos, repetidos, simulando o tempo todo
um cinegrafista descuidado que se move espontaneamente. Em dado momento se
escutam imprecações ininteligíveis e Eddie, que estava filmando, baixa a câmera
e conversa nervosamente com Ra Fear. – Caralho, tem alguém aqui, cara – ele
fala. E o que acontece depois não parece nenhum pouco simulação. Nenhuma imagem
mais é captada com propósito. O rapaz simplesmente corre com o equipamento na
mão sem se preocupar em registrar coisa alguma. Ouvimos o som do vento, dos
passos e gritos assim como uma voz grave, dando ordens monossilábicas. Algo
semelhante a alguém guiando um animal. Em nenhum momento achamos que aquilo é
algo feito para impressionar. É um material cru, descuidado de verdade e
perfeitamente verossímil. Depois de outros gritos a câmera vai ao chão e fica
filmando a relva por duas horas seguidas. Ao fundo ouvimos os gritos dos
rapazes, urros e depois apenas o som da noite. Rafael e Ednardo foram
encontrados por um agricultor no outro dia com as gargantas dilaceradas. Apesar
do registro do material em vídeo, ainda não se tem ideia do que casou suas
mortes. Teorias exageradas da internet surgiram dizendo que havia um feitor que
costumava degolar os escravos. Seus dias tinham chegado ao fim quando dois
negros o capturaram e lhe deram o mesmo destino. Agora no além, continuava a
luta onde contendores degolavam uns aos outros eternamente. E quem invadia
aquele local estava sujeito à guerra entre torturador e escravos. Alguns meses
depois o material dos rapazes caiu na rede e a visualização do vídeo atingiu
cerca de mais de oitocentas mil visualizações.

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