domingo, 2 de dezembro de 2018

FAMOSOS (Conto de terror)


Rafael Silva, conhecido na internet como Ra Fear gozava de certa fama com os vídeos que ele e um amigo faziam sobre lugares supostamente assombrados. Sua mais famosa filmagem, o casarão da água verde, tinha pouco mais de duzentos mil acessos. Isso era suficiente para o rapaz pousar de subcelebridade entre os conhecidos sem maiores questionamentos. Rafael estava sempre procurando lugares supostamente assombrados para explorar. Junto ao amigo, Ednardo, conhecido como Eddie. Além do casarão da água verde, aventura mais dispendiosa da dupla, eles tinham ido a uma casa onde supostamente vivera um canibal, cujo fantasma diziam aparecer em noites de sexta feira. Invadiram um cemitério tarde da note para filmar, visitaram as ruínas de um hospital psiquiátrico, e uma chácara abandonada com a fama de abrigar outros tipos de duendes e almas penadas. Além de meia dúzia de outros lugares famosos por aparições. Rafael e Ednardo, de verdade, nunca registraram de fato algo incrível, mas compensavam isso com um programa de efeitos especiais. Nada muito exagerado para não ficar óbvio a simulação, mas sombras sutis, silhuetas quase indetectáveis no fundo do vídeo além de efeitos sonoros, garantiam um material curioso e com público certo na quase infinita Surface. O último trabalho deles, porém contém algo escabroso, ainda não explicado totalmente. E não é fruto da engenhosidade ou criatividade dos rapazes, isto é certo. Rafael e Ednardo, ou, como gostavam de ser conhecidos, Ra Fear e Eddie, pegaram seus equipamentos, suas motos e se aventuraram a ir fazer imagens de uma pequena residência abandonada nos limites da cidade. Diziam que a casa tinha fantasmas e era assombrada desde que fora construída. A fama, explicavam os rapazes no início do material encontrado, se dava porque que o lugar fizera parte de uma imensa fazenda do século XVII que tinha inúmeros escravos. Segundo os rapazes, que fizeram razoável pesquisa sobre o lugar, a casa ficava justamente onde era o pelourinho. Onde incontáveis escravos haviam encontrado a morte através de suplícios terríveis. A reconstituição, baseada no material dos rapazes, indica que eles chegaram ao local por volta das dez da noite. Fizeram uma prévia do ambiente, filmando diversas panorâmicas e depois começaram a fazer imagens do perímetro da casa. Nesse momento percebemos os rapazes falando de barulhos inaudíveis (que se supõe seriam introduzidos na edição do material) e repetindo frases de efeitos. Nesse momento fica claro que Rafael e Ednardo produziam filmagens básicas para depois manipular à vontade no computador. Depois segue-se imagens no interior dos restos da casa. Com excelente material de iluminação podemos ver os detalhes dos cômodos, o que causa estranheza são os movimentos do cinegrafista. São súbitos, repetidos, simulando o tempo todo um cinegrafista descuidado que se move espontaneamente. Em dado momento se escutam imprecações ininteligíveis e Eddie, que estava filmando, baixa a câmera e conversa nervosamente com Ra Fear. – Caralho, tem alguém aqui, cara – ele fala. E o que acontece depois não parece nenhum pouco simulação. Nenhuma imagem mais é captada com propósito. O rapaz simplesmente corre com o equipamento na mão sem se preocupar em registrar coisa alguma. Ouvimos o som do vento, dos passos e gritos assim como uma voz grave, dando ordens monossilábicas. Algo semelhante a alguém guiando um animal. Em nenhum momento achamos que aquilo é algo feito para impressionar. É um material cru, descuidado de verdade e perfeitamente verossímil. Depois de outros gritos a câmera vai ao chão e fica filmando a relva por duas horas seguidas. Ao fundo ouvimos os gritos dos rapazes, urros e depois apenas o som da noite. Rafael e Ednardo foram encontrados por um agricultor no outro dia com as gargantas dilaceradas. Apesar do registro do material em vídeo, ainda não se tem ideia do que casou suas mortes. Teorias exageradas da internet surgiram dizendo que havia um feitor que costumava degolar os escravos. Seus dias tinham chegado ao fim quando dois negros o capturaram e lhe deram o mesmo destino. Agora no além, continuava a luta onde contendores degolavam uns aos outros eternamente. E quem invadia aquele local estava sujeito à guerra entre torturador e escravos. Alguns meses depois o material dos rapazes caiu na rede e a visualização do vídeo atingiu cerca de mais de oitocentas mil visualizações.

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