Comprei
a chácara por um preço realmente incrível. Depois de tudo que houve, lembrei
daquelas histórias repetidas à exaustão de pessoas que compram casas assombradas
por preços inacreditáveis. Mas a chácara não era assombrada. Nunca foi. O
problema é que recebia visitas. Estranhas e aterrorizantes visitas. E isso não
era exclusividade do meu recém adquirido imóvel, como viria a descobrir logo
depois. Fui com meus familiares, amigos e seus parentes para a chácara a fim de
aproveitar o final de semana. O primeira vez na minha propriedade, conquista de
anos e anos de esforço, trabalho. Chegamos por volta do meio dia, nos
estabelecemos e fomos cuidar do almoço. Foi pura descontração com o churrasco
assando e as cervejas consumidas alegremente. Havia ali uma piscina rudimentar
onde combatemos bem o calor. E assim seguiu o dia, horas de pura descontração
em que esquecemos da rotina que nos cansava." Fim de tarde, uma comida
leve e mais algumas cervejas. Veio a noite e as crianças foram dormir, exaustas
de tanto se divertir. Ficamos tomando algumas cervejas e conversando sobre
amenidades. Depois de algum tempo ficamos em silêncio ouvindo o som dos grilos
e cigarras, olhando o céu estrelado – muito diferente do céu visto na cidade – e
alguns até começaram a cochilar em suas cadeiras de praia. Eu já tinha tido a
resolução de convocar a todos para nos recolher quando vi um clarão surgir por
detrás da serra que contornava o horizonte, para além do mato que circundava a
chácara. “Que é isso gente?”, indagou Andréia, minha esposa. Nossos amigos
voltaram suas atenções ou despertaram de seus cochilos. Todos olhamos e vimos
um objeto oval, gigante e luminoso se aproximar. “Isso é um disco voador, minha
gente”, disse Marcão. Independentemente do que fosse, eu não queria ficar ali
para descobrir. “Vamos entrar, pessoal, vamos entrar”, gritei, segurei na mão
de Andréia e corremos para a casa. Os outros me seguiram, mas não sem antes
gritarem e tropeçarem em cadeiras e uns nos outros. Chegamos até a casa, uns
mais assustados que outros. Tomei a frente e fiquei com a porta entreaberta
vendo o que era aquela coisa. Marcão, Érico e Naldo se postaram próximos para
olhar também. O restante, tomado de medo, não quis ver. Foi então que a
bizarrice tomou conta da minha propriedade diante de meus olhos tão pouco
acostumados a coisas anormais. Aquele clarão chegou sobre a chácara e se desfez
em vários pedaços que caíram como flocos de neve. E cada ponto luminoso daquele
se transformou numa criatura esbranquiçada, desforme e indescritível. Os que
caíram na minha propriedade ficaram andando de um lado para outro, parecendo
fungar como animais, examinando as coisas ao redor, ora caminhando ereto como
homens, ora rastejando como bichos. Olhei para meus amigos e vi a expressão de
espanto e horror em seus rostos e soube também que eu devia estar igual. Os que
tinha ficado afastados, vieram espiar o que acontecia, mas se voltavam
assustados repetindo a pergunta: “Que é isso, meu Deus?!” Continuei olhando,
analisando a situação. Se aqueles monstros viessem em nossa direção, teríamos
que pegar as crianças, correr para nossos automóveis e fugir o mais rápido
possível. Falei disso para o grupo, mas eles mal pareceram me ouvir. Marcão foi
o único que acenou com a cabeça. “Será que são extraterrestres? ”, indagou
Naldo. “Não! Vieram naquela espécie de nuvem brilhante e caíram se espalhando
por todos os lados”, falei. “É claro que são extraterrestres”, disse Manuela
depois de uma rápida olhada. “Vamos embora, gente”, alguém pediu choroso.
“Essas coisas são demoníacas”, falei e no meu íntimo tudo corroborava para
aquela afirmação. “Extraterrestre vem em nave, não voando no ar como nuvem! ” E
então nesse momento as criaturas fizeram um barulho conjunto, se juntaram e
correram saltando os limites da propriedade. Pareciam um grupo de bichos
fugindo num estouro de manada.
Ficamos acordados até de manhã.
Deixamos apenas as mulheres dormirem e fincamos em vigília, preparados para fuga,
a madrugada toda, tomando café, falando sobre o incidente e olhando pela
janela. Não houve mais sinal algum daquelas coisas. Fomos embora de manhã
exaustos e em silêncio. Demorei um mês para voltar à chácara e quando o fiz,
fui antes nos meus vizinhos indagar sobre o ocorrido. Na primeira visita
encontrei um senhor que não se espantou nem um pouco com minha descrição. Ele
disse que conhecia bem o fenômeno. “São demônios que caem do céu. Estão por
aqui só de passagem, não precisa ter medo. Apenas evite estar à céu aberto
entre meia noite e meia noite e dez. Antes e depois não tem perigo. Todo mundo
por aqui já viu esse negócio. É só tomar cuidado”, narrou o homem com uma calma
espantosa. Outra pessoa, de ares religiosos, travou rápida conversa e concordou
com o velho. “São as potestades do ar descritas na bíblia”, explicou. Depois
voltei a frequentar o lugar para praticar meu lazer. Alertava meus novos
visitantes sobre o acontecimento – que não acontecia em todas as ocasiões – e
as vezes mostrava, na segurança da minha varanda, aqueles demônios caindo do
céu.

Uma beleza de texto, Jorge. Permita-me registrar que a pessoa que digitou seu conto escreveu "... não se espantou nenhum pouco...", Quando deveria ter escrito "... não se espantou nem um pouco..." Continuarei a ler seus escritos.
ResponderExcluirValeu... Foi eu mesmo que digitei errado, sou do tempo da máquina de escrever, mandando ver com todos os dedos, rápido - ou querendo ser - doido pra cometer esse tipo de deslize.
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