domingo, 11 de novembro de 2018

SATÂNICOS (Conto de terror)


Começo essa mensagem informando que isso não é uma brincadeira. Talvez você até possa encontrar algumas notícias sobre minha morte ou desaparecimento. Deixo esse escrito como alerta e uma pequena ajuda para aqueles que quiserem desvendar meu assassinato. Meu nome é Felipe Alonso, sou programador e tinha como hobby – nada saudável, hoje reconheço – de chafurdar os abismos da internet. Foi lá que me deparei com um grupo auto denominado O Sábios. Como muitas outras associações obscuras da internet, esse grupo se definia como adoradores de Satã. A peculiaridade deles era a de que suas crenças se baseavam na premissa de que o príncipe das trevas era o ser mais injustiçado do universo. Lúcifer sofrera a punição de um Deus déspota e soberbo. Foi num foro online que travei conhecimento com os praticantes desse culto. A nível de curiosidade mórbida, troquei contatos com um sujeito denominado Demon8. Para ser justo, admito que Demon8 me advertiu em várias ocasiões e perguntou muitas vezes se eu queria mesmo conhecer o grupo. Acreditando que aquilo se tratava de mais uma bravata da deep web, disse que tinha interesse em entrar no grupo. Demon8 falou que  poderia fazer uma iniciação online comigo e um dia promover um encontro com um de seus representantes. Disse-lhe que era uma boa ideia e confesso que digitei isso rindo bastante. Muito interessante saber que os seguidores de Satã tinham uma escola de conversão via internet. Uma coisa aparentemente tosca que tinha outros objetivos. Então meu contato me enviou vários pdfs falando de sua crença. Não tive muita paciência para ler o material completamente, mas em suma eles se diziam membros da religião mais antiga da terra, a única que defendia um ideal de justiça e uma aberta rebeldia contra Deus. Depois de responder a algumas perguntas, das quais não recordo no momento, Demon8 indagou se eu estava preparado para o próximo passo. Perguntei qual seria e ele respondeu que se tratava de cometer um assassinato ritualístico para consolidar meu desejo de entrar na seita. Após disso, sem muita conversa, me mandou um link no que me direcionou a um vídeo. Nesse momento vi que não estava diante de alguém que estivesse apenas brincando. No vídeo, Demon8 assassinava um homem e se lambuzava com seu sangue. Como tive certeza de que o vídeo era real? Simples, a imagem em alta definição mostrava um sujeito que se apresentava como Demon8 e dizia que a seguinte morte era para servir de modelo para mim. Citava meu nome, dados e dizia que era uma exigência que matasse alguém da mesma maneira e gravasse meu crime. Nessa ocasião, passei a noite em claro pensando na loucura em que tinha entrado. Por causa de mim, alguém tinha sido morto. No outro dia, tentei apagar meus rastros na rede fazendo uso dos meus conhecimentos. Um mês depois, quando começava a pensar naquela história como um pesadelo distante, recebi um telefonema em meu celular de Demon8. Naquele mesmo instante joguei fora meu chip. Como não usasse mais nenhuma rede social, passei a receber bilhetes de Demon8. Era inexplicável como eu os achava, algo a tal ponto tão impressionante, que eu achava que aquilo tinha um quê de sobrenatural. Os recados que eu recebi exigiam que eu continuasse com o que tinha me proposto a fazer. Era isso ou uma morte horrível. Cheguei a mudar de apartamento, mas os recados não paravam de chegar. Certa noite, num impulso, liguei para um dos números do bilhete e disse que não ia matar ninguém, que tudo tinha sido um mal-entendido, uma brincadeira estúpida de minha parte e que se não me deixassem em paz ou eu iria colocar a polícia no meio daquela história. O homem do outro lado simplesmente disse que eu não tinha como escapar e que ficasse a vontade de fazer o que eu quisesse, só devia ficar advertido que as consequências estavam por vir. Ontem à noite recebi um ultimato. Eu teria apenas um dia para resolver. A polícia agiu com incredulidade quando eu disse que não tinha mais o link do crime, tudo se fora com a limpeza dos meus rastros. Resolvi fugir. Tomei um ônibus de viagem e depois de uns bons cem quilômetros, desci e me hospedei numa pequena pousada de beira de estrada. No meio da noite, acordei com o telefone tocando. Ao atender apenas ouvi: - Não adianta fugir, nós sabemos onde você está. – Foi então que eu me sentei e escrevi esse relato. Amanhã pretendo fazer cópias deles e continuar na minha fuga, deixando em cada canto essa mensagem.

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