domingo, 18 de novembro de 2018

O AÇOUGUEIRO (Conto de terror)


A pequena cidade ficou consternada com o acontecimento. A mulher e a filha de Isaque, o açougueiro mais conhecido, desapareceram naquela tarde de domingo como se o chão houvesse aberto um buraco e as puxado para as profundezas da terra. Veio a polícia da cidade, depois auxílio de investigadores da capital, mas não descobriram sequer uma pista sólida para seguir. O caso trouxe espanto e pavor. Aquilo não era o tipo de coisa comum numa cidadezinha como Paraíso Alto, embora alguns discordassem. Esse mundo não é mais o mesmo, diziam alguns. Isaque foi inúmeras vezes interrogado. A primeira vez o homem se desfazendo em lágrimas, na segunda e terceira vez parecia frio e distante como se estivesse catatônico. Houve quem falasse de choque pós-traumático, termo quase incompreensível para aquela gente de cidade simples. O impacto do incidente arrefeceu juntamente com as investigações. Pouco a pouco, as coisas voltaram ao normal. E foi justamente nesse tempo, depois de dois meses, que Isaque voltou ao trabalho. Estivera à beira da inanição, passando por todos os tipos de privações financeiras, salvo pela caridade alheia. Sem mais o que fazer, além de aguardar, retornou ao ofício de açougueiro. Na pequena venda ao lado de sua casa, voltou a comercializar suas carnes e frios. Foi nesse mesmo tempo que começou a vender uma linguiça que chamou a atenção dos clientes. Um produto de alta qualidade, de sabor incrível. Linguiça apimentada que agradava a todos e em diversas ocasiões. A procura foi enorme e todos faziam questão de elogiar a mercadoria. Isaque, ainda visivelmente abalado pelo sumiço da mulher e filha, só concordava.       - Mas que linguiça boa, compadre – diziam quase todos os dias no balcão de Isaque. Ao que o açougueiro se limitava a comentar:
            - É nova, apimentada... Muito boa mesma, compadre.
            E foi então que uma conversa estranha se espalhou na cidade. O boato de que a nova linguiça, oriunda do açougue de Isaque, sucesso total, era feita de carne humana. As más línguas começaram a dizer que Isaque havia matado a mulher e a filha, moído e temperado suas carnes para fazer recheio de linguiça. Obviamente houve gente que achou a história absurda, mas muita gente começou a acreditar e espalhar a história. Foi Rodolfo, o conserta tudo da cidade que alertou o vizinho da história que estavam espalhando sobre sua mercadoria. Isaque xingou e chorou, ofendido por tamanho insulto. Jurou esquartejar quem tivesse inventado aquela injuria. Mas os boatos continuaram e logo as pessoas deixaram de fazer suas compras no açougue de Isaque. Acompanhados de Rodolfo, que se prontificou a ajudar o vizinho, a polícia fez buscas no estabelecimento do homem afim de eliminar aquelas suspeitas absurdas. A princípio os homens não sabiam o que o procurar, pois quem entendia de anatomia a ponto de diferenciar pedaços miúdos de carne humana e animal? Mas não demorou para que os homens, mesmo numa busca displicente – na verdade tinha ido ali com a resolução apenas de acabar com aqueles boatos – encontrassem indicações de que ali havia acontecido um crime. Roupas de uma mulher e uma criança, ensanguentadas foram encontradas numa sacola escondidas num canto. Isaque não soube explicar como aquele material estava ali. Mas não demorou para que as coisas ficassem ainda mais complicadas. Um dos policiais achou orelhas humanas, dedos e outros pedaços de carne num saco, congelados no fundo do freezer. O açougueiro foi preso sob gritos e protestos. Rodolfo levou as mãos à cabeça.
            - Pelo amor de Deus, compadre!
            O povo de Paraíso Alto ficou absolutamente chocado com a história. A imprensa do estado fez cobertura do caso que logo foi comparado aos crimes da rua do Arvoredo, caso famoso que teve lugar em Porto Alegre no século XIX. Isaque continuou negando a autoria do crime, mesmo com a comprovação de que roupas, sangue e demais restos humanos eram de sua mulher e filha. Uma manhã o açougueiro foi encontrado morto, enforcado com um curto pedaço de tecido, engenhosamente preço nas grades da cela, numa espécie de garrote onde só foi possível se matar de joelhos, com o corpo devidamente curvado. A polícia forense fez um exame geral nos apetrechos de trabalho de Isaque, mas não encontrou mais vestígios de sangue e carne humana em nenhum outro canto, fato que indicaria que ele não produzira linguiças naquele local, muito menos com carne de pessoas. Rodolfo ficou preocupado com a descoberta, pois achara que as roupas, alguns pedaços do corpo da mulher e da criança seriam suficientes para comprovar a culpa do vizinho. Devia ter levado mais que isso para o estabelecimento de Isaque, o que seria complicado. Pelo menos estava tranquilo. Ele cometera um crime ao qual ninguém suspeitava ser ele o autor, e ainda por cima conseguira colocar a culpa no marido e pai das vítimas, além da história das linguiças, que mesmo desmentido pelas autoridades, continuava como fato na boca do povo.

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