domingo, 4 de novembro de 2018

DO OUTRO MUNDO (Conto de terror)


Ele não colocava muita fé nessas histórias de almas penadas, mas também não duvidava. Era um caboclo do sertão que não se preocupava muito com as especulações sobre o outro mundo. Mas então algo veio a acontecer que mudaria muita coisa nas suas crenças. Fernando fazia um caminho sagrada sobre seu cavalo nas noites de sexta feira e sábados. Era uma pequena empreitada de poucos quilômetros, mas com caráter extremamente importante: ir ver a noiva. Ia sempre a noitinha, por volta das oito e voltava dez, onze. Era muito querido pela família da noiva e as vezes conversava com o pai da sua amada sobre roça e coisas afins. As vezes a troca de ideias entre futuro genro aproximava da meia noite, então, Seu João se apressava em se despedir do rapaz. Fernando beijava a noite e tomava seu caminho à cavalo. As vezes achava ríspida a resolução do futuro sogro em despacha-lo súbito, quando se aproximava das doze da noite, mas acreditava que isso fosse uma resolução do velho para que a filha não ficasse mal falada na vizinhança como a moça que ficava com o noivo até depois da meia noite. O motivo, no entanto, era outro. Fernando, não dava muita atenção, mas próximo a margem de um pequeno córrego, no caminho para a casa da noiva, havia uma cruz que sinalizava que alguém tinha perdido a vida ali. Diziam que ninguém passava pelo lugar depois da meia noite, pois coisas estranhas aconteciam. Ninguém contava ao rapaz que o motivo da despedida repentina era para que ele evitasse os perigos do sobrenatural nesse ponto, no horário mágico que permitia a intercessão dos mundos. Porém, certa vez, devido a uma conversa empolgada sobre novas máquinas agrícolas, Fernando estava na residência da noiva faltando apenas dez minutos para a meia noite. Seu João, como sempre, temeroso de alma penada tratou de manda-lo embora. Rapaz, já é quase meia, noite, melhor você ir indo, falou se levantando da cadeira de balanço na varanda. Resignado, o rapaz foi beijar a noiva e pegar seu cavalo. Ele só saberia depois, mas a noiva e sua família, a partir do momento em que ele saiu, começaram a rezar para que ele fosse rápido e passasse pela cruz antes que desse a hora das visagens. Fernando, como sempre, seguiu sem pressa. Gastou logo os oito minutos que lhe restavam e chegou à margem do córrego meia noite e dois. Tudo transcorri na mais absoluta normalidade até que o Primoroso, o cavalo de Fernando estacou súbito. Estranho, pensou Fernando, aquilo não era do feitio do animal. Que tinha acontecido? Primoroso virara uma mula teimosa. A princípio, ele adulou o bicho e bateu com os calcanhares de leve nas suas ancas. O cavalo andou mais três metros, ultrapassou o córrego e estancou novamente. Dessa vez, Fernando foi mais severo nos comandos. Falou com o cavalo como costumava fazer e já estava prestes a  xinga-lo quando percebeu duas coisas desconcertantes: um vento frio vindo do nada e uma presença de puro espanto. Foi olhando para trás, mas antes que pudesse completar o ângulo para ver o que tinha atrás de si, viu, pela sua visão periférica um ser escuro. Voltou-se para frente e sentiu todos os pelos do seu corpo ficarem de pé. Seria a alma do caboclo dono daquela cruz ali que ele não dava importância? Fernando voltou a fustigar o animal, queria sair dali o mais rápido possível, mas o cavalo parecia de pedra. Foi então que tudo piorou vertiginosamente. O rapaz sentiu numa espécie de onda de choque quando aquela coisa tocou no seu cavalo... Subiu na garupa do animal. Primoroso relinchou, chegando a erguer a meia altura as patas dianteiras. Houve um momento em que o bicho pareceu relaxar, mas ele apenas puxou o fôlego e começou a dar coices e se movimentar como um cavalo de rodeio. Fernando, sem conseguir olhar para trás, se segurou como pôde e cerrou os dentes entre o terror daquela presença e a vontade de gritar rogos e pedidos de ajuda. Primoroso correu alguns metros, chegou numa clareira e começou a rodopiar. O que quer que estivesse em sua garupa, não o abandonou. Fernando podia sentir a carona indesejada com sua presença de chumbo às costas, forçando as ancas do pobre animal com seu peso do outro mundo. O rapaz começou a rezar, mas isso pareceu não surtir efeito. Quando o cavalo parou de rodopiar, Fernando pensou em desmontar, mas a perspectiva de ficar a pé diante da aparição o enchia do mais puro pavor. Foi então que ele voltou a falar com o animal num misto de comando e cumplicidade. Abraçou o pescoço do bicho e começou a falar em seu ouvido: Vamos sair daqui, meu camarada, vamos... Vai, Primoroso, vai, vai, trote, trote, voltou-se e fez o movimento nas rédeas para que o cavalo trotasse em velocidade média. O animal obedeceu. Caminhou alguns metros com algum esforço, pois a presença continuava na garupa, pesando como carga imensa. Então depois de um longo e desesperado relincho, o cavalo se livrou da carona indesejada. Fernando ouviu bem quando aquela coisa saltou e fez barulho ao pisar no chão. Primoroso aumentou a velocidade e correu bastante trazendo alívio para si e para o seu dono, se afastando da entidade e do seu local sagrado. O animal e seu dono chegaram em casa com as respirações alteradas. Fernando levou Primoroso até seu local de descanso, o abraçou e o beijou agradecendo por tê-lo salvado daquele episódio. Depois caiu pesado na sua cama e dormiu profundamente. No outro dia, a primeira coisa que fez, foi consultar a tia, uma mulher especialista em casos de assombração. Ela disse que o sobrinho fora vítima de uma alma condenada, presa entre os mundos por ter tido uma morte violenta. Evite de passar por esse lugar depois da meia noite, aconselhou a mulher. O rapaz também telefonou para a noiva e, mesmo se sentindo encabulado, contou-lhe toda a história. Ela confirmou o que dissera a tia e confessou ser essa a razão do pai dar por encerrado o encontro deles, pouco antes da meia noite. Fernando sentiu-se aliviado, mas quando foi verificar seu cavalo favorito, companheiro da luta contra fantasmas, teve uma surpresa bastante desagradável. O animal jazia no fundo da cocheira sem vida. Em seu quadril, marcado no pelo claro, estava um desenho escuro no formato dos membros da carona indesejada da noite passada.

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