Ele
não colocava muita fé nessas histórias de almas penadas, mas também não
duvidava. Era um caboclo do sertão que não se preocupava muito com as
especulações sobre o outro mundo. Mas então algo veio a acontecer que mudaria
muita coisa nas suas crenças. Fernando fazia um caminho sagrada sobre seu
cavalo nas noites de sexta feira e sábados. Era uma pequena empreitada de
poucos quilômetros, mas com caráter extremamente importante: ir ver a noiva. Ia
sempre a noitinha, por volta das oito e voltava dez, onze. Era muito querido
pela família da noiva e as vezes conversava com o pai da sua amada sobre roça e
coisas afins. As vezes a troca de ideias entre futuro genro aproximava da meia
noite, então, Seu João se apressava em se despedir do rapaz. Fernando beijava a
noite e tomava seu caminho à cavalo. As vezes achava ríspida a resolução do
futuro sogro em despacha-lo súbito, quando se aproximava das doze da noite, mas
acreditava que isso fosse uma resolução do velho para que a filha não ficasse
mal falada na vizinhança como a moça que ficava com o noivo até depois da meia
noite. O motivo, no entanto, era outro. Fernando, não dava muita atenção, mas
próximo a margem de um pequeno córrego, no caminho para a casa da noiva, havia
uma cruz que sinalizava que alguém tinha perdido a vida ali. Diziam que ninguém
passava pelo lugar depois da meia noite, pois coisas estranhas aconteciam.
Ninguém contava ao rapaz que o motivo da despedida repentina era para que ele
evitasse os perigos do sobrenatural nesse ponto, no horário mágico que permitia
a intercessão dos mundos. Porém, certa vez, devido a uma conversa empolgada
sobre novas máquinas agrícolas, Fernando estava na residência da noiva faltando
apenas dez minutos para a meia noite. Seu João, como sempre, temeroso de alma
penada tratou de manda-lo embora. Rapaz, já é quase meia, noite, melhor você ir
indo, falou se levantando da cadeira de balanço na varanda. Resignado, o rapaz
foi beijar a noiva e pegar seu cavalo. Ele só saberia depois, mas a noiva e sua
família, a partir do momento em que ele saiu, começaram a rezar para que ele
fosse rápido e passasse pela cruz antes que desse a hora das visagens.
Fernando, como sempre, seguiu sem pressa. Gastou logo os oito minutos que lhe
restavam e chegou à margem do córrego meia noite e dois. Tudo transcorri na
mais absoluta normalidade até que o Primoroso, o cavalo de Fernando estacou
súbito. Estranho, pensou Fernando, aquilo não era do feitio do animal. Que
tinha acontecido? Primoroso virara uma mula teimosa. A princípio, ele adulou o
bicho e bateu com os calcanhares de leve nas suas ancas. O cavalo andou mais
três metros, ultrapassou o córrego e estancou novamente. Dessa vez, Fernando
foi mais severo nos comandos. Falou com o cavalo como costumava fazer e já
estava prestes a xinga-lo quando
percebeu duas coisas desconcertantes: um vento frio vindo do nada e uma
presença de puro espanto. Foi olhando para trás, mas antes que pudesse
completar o ângulo para ver o que tinha atrás de si, viu, pela sua visão
periférica um ser escuro. Voltou-se para frente e sentiu todos os pelos do seu
corpo ficarem de pé. Seria a alma do caboclo dono daquela cruz ali que ele não
dava importância? Fernando voltou a fustigar o animal, queria sair dali o mais
rápido possível, mas o cavalo parecia de pedra. Foi então que tudo piorou
vertiginosamente. O rapaz sentiu numa espécie de onda de choque quando aquela
coisa tocou no seu cavalo... Subiu na garupa do animal. Primoroso relinchou,
chegando a erguer a meia altura as patas dianteiras. Houve um momento em que o
bicho pareceu relaxar, mas ele apenas puxou o fôlego e começou a dar coices e
se movimentar como um cavalo de rodeio. Fernando, sem conseguir olhar para trás,
se segurou como pôde e cerrou os dentes entre o terror daquela presença e a
vontade de gritar rogos e pedidos de ajuda. Primoroso correu alguns metros,
chegou numa clareira e começou a rodopiar. O que quer que estivesse em sua
garupa, não o abandonou. Fernando podia sentir a carona indesejada com sua
presença de chumbo às costas, forçando as ancas do pobre animal com seu peso do
outro mundo. O rapaz começou a rezar, mas isso pareceu não surtir efeito.
Quando o cavalo parou de rodopiar, Fernando pensou em desmontar, mas a
perspectiva de ficar a pé diante da aparição o enchia do mais puro pavor. Foi
então que ele voltou a falar com o animal num misto de comando e cumplicidade.
Abraçou o pescoço do bicho e começou a falar em seu ouvido: Vamos sair daqui,
meu camarada, vamos... Vai, Primoroso, vai, vai, trote, trote, voltou-se e fez
o movimento nas rédeas para que o cavalo trotasse em velocidade média. O animal
obedeceu. Caminhou alguns metros com algum esforço, pois a presença continuava
na garupa, pesando como carga imensa. Então depois de um longo e desesperado
relincho, o cavalo se livrou da carona indesejada. Fernando ouviu bem quando aquela
coisa saltou e fez barulho ao pisar no chão. Primoroso aumentou a velocidade e
correu bastante trazendo alívio para si e para o seu dono, se afastando da
entidade e do seu local sagrado. O animal e seu dono chegaram em casa
com as respirações alteradas. Fernando levou Primoroso até seu local de
descanso, o abraçou e o beijou agradecendo por tê-lo salvado daquele episódio.
Depois caiu pesado na sua cama e dormiu profundamente. No outro dia, a primeira
coisa que fez, foi consultar a tia, uma mulher especialista em casos de
assombração. Ela disse que o sobrinho fora vítima de uma alma condenada, presa
entre os mundos por ter tido uma morte violenta. Evite de passar por esse lugar
depois da meia noite, aconselhou a mulher. O rapaz também telefonou para a
noiva e, mesmo se sentindo encabulado, contou-lhe toda a história. Ela
confirmou o que dissera a tia e confessou ser essa a razão do pai dar por
encerrado o encontro deles, pouco antes da meia noite. Fernando sentiu-se
aliviado, mas quando foi verificar seu cavalo favorito, companheiro da luta
contra fantasmas, teve uma surpresa bastante desagradável. O animal jazia no
fundo da cocheira sem vida. Em seu quadril, marcado no pelo claro, estava um
desenho escuro no formato dos membros da carona indesejada da noite passada.

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