domingo, 14 de outubro de 2018

A COISA QUE URRAVA parte 2 (Contos de terror)


A decisão que eu tomei para resolver aquilo trouxe resultado, mas também efeitos colaterais indeléveis. Como cheguei a passar uma noite toda acordado por causa dos urros, resolvi buscar mais a fundo a origem daquilo. Nem sequer esperei passar outra noite toda em claro. Uma foi simplesmente um inferno! Então, imediatamente na noite seguinte, saí de casa tão logo os urros começaram. Parei diante do meu portão e olhei para os dois lados da rua. Não havia viva alma naquela hora da noite. Apenas um vento frio e o farfalhar das plantas. Apesar de todos os postes da rua terem lâmpadas funcionando perfeitamente, parte da rua ficava na penumbra. Principalmente debaixo dos enormes pés de jambo que se dispunham na caçada – e por ali havia vários. Estranhamente não ouvi os urros. Aleatoriamente escolhi o caminho da direita e fui andando. Olhava os muros e as janelas das casas vizinhas. Caminhei pouco e logo às minhas ouvi os malditos urros. Voltei-me e fui andando, apurando o ouvido para descobrir de onde vinha aquele som. De acordo com minha audição atravessei a rua e fui em direção a um automóvel que estava dois terços estacionado na calçada, o restante na rua. Os urros e gemidos ficaram tão próximos que eu tive a certeza de que logo veria o ser que produzia aquelas lamúrias a noite toda. Parei perto do automóvel e escutei. Caminhei mais um pouco e a fonte do barulho pareceu diminuir. Voltei. Olhei para dentro do automóvel de vidros escuros, mas era impossível ver algo através do vidro. Será que a criatura estava dentro daquele automóvel? Agora ouvindo os urros e gemidos tão mais próximos, não sabia dizer se quem produzia aquilo era um ser humano ou um animal. Mas não fazia sentido uma pessoa ou bicho estarem preso dentro do automóvel. Que louco faria isso? Tive então uma ideia bastante óbvia: olhar debaixo do carro. Fui me agachando quando ouvi algo além dos urros. O som do movimento de patas de um animal ciscando no chão. Imediatamente me detive. Fui me afastando devagar e olhando para debaixo do automóvel. Tive certeza de que havia algo ou alguém ali embaixo. Parei, continuei observando e recordo bem que nesse momento os urros cessaram. Então ele – uso o pronome apenas para designar o ser, mas era impossível saber se era do gênero feminino ou masculino – saiu de debaixo do carro. Descobri naquele momento que o horror absoluto causa um choque quase indescritível e progressivo. Senti minhas forças serem drenadas pouco a pouco. Lembro que além do mal-estar físico intenso que senti, algo gritou na minha mente que o sobrenatural com fantasmas e demônios eram uma coisa absurdamente real. E eu estava ali e todo aquele horror não era um simples pesadelo. O ser tinha traços humanos, mas era deformado a um ponto que não se podia dizer que era uma pessoa com defeitos congênitos ou adquiridos. O monstro se arrastou para fora, olhou para mim e abriu a boca. Seu crânio exibia uma fonte baixa, seus olhos não possuíam simetria, apesar de terem algo de consciente, humano e febrilmente insano. Sua boca era enorme e tinha dentes enormes, amarelados e sujos. O nariz eram apenas dois orifícios desiguais entre a inexistência de lábios e os olhos. Seu tronco era curvado e seus membros, braços e pernas desiguais. Numa fração de segundos achei que aquela coisa fosse aleijada, mas logo conclui que não. Havia uma harmonia doentia na anatomia da criatura. Uma anatomia que a projetara para rastejar e ser repulsiva. Mas nem o mais vil dos repteis que eu conhecia tinha aspecto tão desagradável. A pele da criatura variava de um tom amarelo a branco e tinha muitas manchas escuras. Também exalava um odor de carne podre insuportável. Ele me olhou nos olhos, abriu a boca e urrou do jeito familiar que eu acompanhara todos os dias desde que viera morar ali. Nesse momento percebi que me faltava ar e minha pernas pareciam pesar toneladas. Caminhei de costas com os olhos pregados no monstro, vendo ele se arrastando e urrando. Com dificuldade me voltei e segui em direção à minha casa. Parei diante do meu portão, me virei e vi que o demônio ainda vinha em minha direção. Nada do que posso falar acerca daquela criatura se constitui numa certeza, mas tinha uma impressão bastante clara de que ele sofria e havia rancor no seu urro além de dor. Este foi um dos meus últimos pensamentos antes de desmaiar.
            Acordei com uma senhora com roupas esportivas me chamando. “Meu filho, que você tá fazendo deitado na calçada? ” Levantei, encarei a senhora, olhei para o local onde tinha visto o monstro a última vez e não vi nada. “Você está bem, jovem? ”, indagou a senhora. Disse-lhe que tinha passado mal quando vinha chegando em casa. “Isso foi coisa de farra...”, a senhora falou e eu me apressei a entrar em casa. Ela continuou falando algo, mas eu não ouvi. Tratei de entrar em casa para fugir de todo aquele horror que parecia estar ainda bem próximo de mim.
            Naquele mesmo dia fui para casa dos meus pais. Dois dias depois fui com uma empresa de mudanças pegar meus poucos pertences. Minha mãe insistiu em saber o que tinha me feito abandonar a nova casa. O tempo todo ela insinuava que eu tinha sido assaltado ou coisa parecida. Não me animei a contar a história daquela coisa que urrava. Mas não lhe ocultei tudo. Disse-lhe que a casa, a rua me dava arrepios e eu tinha dificuldade de dormir. Meus pais disseram que eu poderia ficar o tempo que quisesse. Obviamente não ouvi mais os urros daquela criatura, mas sua imagem ficou gravada em minha mente e, embora eu a tivesse visto por pouco mais de um minuto, era algo bastante nítido. Tanto que, as vezes a noite demoro a dormir lembrando de sua face e urros, além dos sonhos recorrentes que tenho com sua visão de puro horror. Já fazem 10 anos que isso ocorreu, mas eu recordo tudo tão bem como se tivesse acontecido há uma semana. Nunca encontrei uma explicação clara para o que aconteceu. Quem ouviu de mim o acontecimento, falou em sonhos acordados. Não posso especular mais nada, só tenho a certeza de que o horror existe com mistérios absolutos e aparentemente sem propósitos.

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