Foi como uma explosão! Um choque! Eu levantei num impulso, pois meu sono leve era uma espécie de vigília. Algo no meu inconsciente não me deixara adormecer. De certa forma eu já sabia que algo ia acontecer. Eu os tinha visto logo que chegamos. Os caras estavam na esquina fumando cigarros e observando. Ficou claro que olharam pra nós com bastante interesse. Sabiam que eu não era dali. No mesmo momento pensei que ia ser abordado. Maluco que vinha de fora tinha mais é que ser depenado por malandro velho da área que é quem canta de galo. E era bico calado senão a faca ou a bala é que resolvia o resto da história. Imagino que eles não contavam que eu vinha de uma periferia talvez mais feroz que aquela. Estava atento. "Malandro prevenido dorme de botas!", dizia meu tio, bandido velho que selou seu destino na cadeia, não obstante os rogos e apelos de minha avó. Eu e minha namorada fomos até à casinha. Pequena propriedade da família dela, sem uso específico no momento. A gente ficou de boa, tomou vinho, fez amor, ficou conversando e ouvindo música. Em alguns momentos, olhei pelas frestas das portas e vi que os dois continuavam lá fumando cigarros. Algo me dizia que eles não tinham me esquecido. Falei para minha namorada sobre a intenção dos malandros, conhecia bem o esquema. Nas esquinas onde eu morava, a mesma vadiagem, de butuca ligada pra fazer um lance. E tinha também a hostilidade para com os caras de fora que ficavam com as minas do bairro. Velha posse animal, machista. O pacote era completo! Eu conhecia bem, tivera vários amigos que haviam trilhado por este caminho. Eu mesmo recebera o convite incontáveis vezes. Eu nunca fui um nerd sem jeito para confrontos físicos, mas preferi o caminho do estudo ao da grana fácil das esquinas. Minha família simples por trás disso tudo, ainda que tivesse suas ovelhas perdidas como meu esperto e falecido tio. Meu conhecimento da violência tinha duas faces: a realidade de onde eu vivera e a analise tranquila nos bancos de faculdade. Havia sido lá que conhecera minha namorada. Muitas e muitas discussões nas aulas de antropologia sobre as raízes da violência, do preconceito e descaso na nossa sociedade. Acabamos indo trabalhar num projeto que resgatava moleques em situação de risco. E agora naquele momento de descontração, o confronto com a realidade que a gente discutia, enfrentava socialmente. Quando eles bateram na porta, eu levantei, ainda um tanto atordoado, mas já antevendo que os caras da esquina estavam ali tentando invadir. Em dois passos rápidos, tratei de bloquear a passagem deles. A porta se dividia em duas partes e eles forçavam a parte superior. Com as mãos espalmadas, tratei de dar suporte. Não dava pra confiar no frágil ferrolho, numa porta frágil. Minha namorada observava, olhos arregalados. Os caras batiam e empurravam. Mudei de posição, apoiando com o ombro. Fiz sinal para que minha namorada se preparasse para uma possível invasão. Dava pra ouvir os caras cochichando. "Porta dura da porra!" , um deles falou. "Acho que o maluco tá segurando", adivinhou o outro. Eles reforçaram o ataque. E não foi o frágil ferrolho que começou a ceder, mas uma das dobradiças. Era questão de tempo para que eu e a porta não resistíssemos. Bastava a parte superior ceder e pronto, eles entrariam. Pelo menos um deles tinha uma faca. Isso era um fato. E talvez, eles não se contentassem apenas em roubar. Minha namorada veio me ajudar a segurar a porta. Os caras atacavam, esperavam, recomeçavam. Suponho que eles davam pausas nas investidas para observar ao redor. Por mais que a periferia fosse conivente com os crimes ali, ninguém gostava de testemunhas. Minha namorada e eu nos olhamos nos olhos. O rosto dela brilhava de suor e eu também sentia meu rosto molhado. Eram momentos de desespero e milhares de coisas passavam na minha cabeça. Ali, naquele recinto mínimo, com aqueles dois, as possibilidades nefastas se multiplicariam indefinidas. Bastava que aquele pedaço de madeira se desprendesse. Em dado momento tudo ficou parecendo um sonho. E o tempo do ataque, a nossa resistência não deve ter levado mais que uma dúzia de minutos, mas pareceram horas. Não posso descrever todas as coisas que passaram pela minha cabeça naquele espaço de tempo. Recordo apenas de ter conseguido pensar com clareza e, digamos, alguma frieza. Eu olhei para os lados e vi um pedaço de madeira. Parecia uma tranca de porta que, curiosamente não se encaixava ali - não havia os suportes de metal laterais, destinados para tal fim. Acho que na ultima reforma daquele barraco, haviam removido esse recurso. Quando percebi que nem a porta, nem meu ombro resistiriam mais, eu olhei para minha namorada e fiz sinal para que ela se afastasse. A incompreensão e o pânico em seus olhos me fulminaram. Indiquei para ela com o queixo o pedaço de madeira. A expressão dela mudou, exibiu um entendimento: melhor deixar eles entrarem e depois tentar convencê-los a desistir sob ameaças de pauladas. Ela não pareceu concordar, mas se afastou, pegou a madeira e me ofereceu como uma espada. Nessa hora a outra dobradiça afrouxou. Num pulo me afastei da porta e peguei o pedaço de pau. Minha namorada se postou atrás de mim. E tudo aconteceu muito rápido, sem negociação, palavra alguma ou hesitação. A porta cedeu ficando dependurada, eles invadiram. Ergui a tranca de porta com as duas mãos acima de mim, balancei para confundir e apliquei o golpe certeiro na cabeça do primeiro. Ele foi ao chão num instante. O outro, de faca na mão, balançou para os lados. Ergui novamente minha arma acima da cabeça: posta di Falcone, a guarda do falcão! Esperei ele vir. Ele veio. Meu golpe o acertou na lateral - acredito que ele esperava um golpe de frente. Revezei o ataque acertando-o todas as vezes. Ele caiu. No meu medo e desespero acertei as cabeças deles inúmeras vezes, os dois caídos aos meus pés, sem misericórdia alguma. Ouvi claramente quando os crânios racharam. Quando terminei, olhei para minha namorada atônita e pedi para que ela fosse buscar o carro. Para nossa pequena aventura, tínhamos estacionado na outra rua. Perto da casinha, o automóvel obstruiria a rua estreita. Minha namorada sem falar nada saiu correndo no meio da noite. Eu saí e olhei para os lados. O vento frio trouxe um choque de realidade. Eu havia matado duas pessoas. Os primeiros golpes se justificavam, mas e os outros? Eu tivera tanto receio que só vi a possibilidade de ficar em segurança se os eliminasse. Mas era simples assim? Olhei para todos os lados. Não havia sinal algum de que alguém tivesse presenciado aquilo. Minha namorada veio. Colocamos os mortos no porta malas, pus a porta no lugar de qualquer jeito. Num descampado, não muito longe dali, jogamos os corpos. Sabia que o certo era chamar a polícia, seguir a lei, declarar legitima defesa, mas me vi confiando na impunidade. No descaso que as autoridades teriam para com dois indivíduos que provavelmente tinham fichas criminais - e esse pensamento em si já era preconceituoso. Mas meu palpite estava certo. Não houve investigação, nem testemunhas, nada. Todos entenderam o crime como o destino comum de dois malacas como aqueles. Ninguém se importava. Quanto a mim, carrego para sempre a culpa. Não queria ter oferecido flores para aqueles dois sujeitos naquela noite, mas não queria ter combatido o demônio com o mesmo ódio do demônio. Nunca contei essa história. Não gostaria de ser julgado por ninguém além da minha própria consciência. Não sou religioso, mas espiritualizado e me incomoda bastante essa culpa assim, como a imagem deles que me aparecem certas noites. Eu os vejo de pé, sangrando pela cabeça, me lançando olhares de censura, dizendo: "Não precisava disso, mano... Cê vivia falando contra a violência e cadê? Fez isso sem necessidade!" Sei que eram demônios em vida, o seriam no além, todavia não queria seu sangue impuro em minhas mãos.

😮 ótimo conto! 👏👏👏
ResponderExcluirObrigado. Domingo que vem tem mais...
ExcluirMuito bom parabéns
ResponderExcluirObrigado. Isso me incentiva a trabalhar mais...
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