domingo, 19 de agosto de 2018

RUA DOS ESPÍRITOS (Conto de terror)

A fama da rua tinha se iniciado por causa do imenso terreiro de umbanda do pai Neto. Isso tinha sido
nos anos 60. Pai Neto era famoso e tinha uma legião de admiradores. Os mais velhos contavam que nas noites de sábado, os carrões estacionados na rua eram todos de políticos importantes. Diziam que mais de um governador do estado tinha sido cliente do famoso Pai-de-santo. Pai Neto, morreu assassinado na calçada do próprio terreiro vítima de um marido ciumento. Depois de preso, o homem justificou o assassinato dizendo que sua mulher tinha um caso com o umbandista. A mulher negou tudo, mas os inúmeras facadas que o sujeito desferiu no suposto amante da esposa justificaram pelo menos a passionalidade do ato. O terreiro fechou, mas pouco tempo depois dois umbandistas jovens e promissores abriram seus estabelecimentos bem próximos. Assim a rua pôde continuar movimentada nas noites de sábado. Nenhum dos locais tinha o mesmo apelo que o grandioso terreiro dos tempos áureos, mas juntos convertiam um fluxo de fiéis que alcançava o movimento dos tempos passados. No principio, os dois terreiros eram concorrentes e houveram disputas entre seus respectivos donos. Certa vez mãe Toinha e pai Chagas trocaram palavras duras quando se encontraram numa feira do bairro. A briga, na ocasião, causada pela disputa na compra de umas raízes, embora todos soubessem que o verdadeiro motivo fosse a rivalidade. Esperou-se pelo pior, mas tudo foi resolvido pouco tempo depois e os terreiros passaram a conviver em harmonia, embora uma discreta concorrência ainda existisse. Lideres dos terreiros se sucederam ao longo dos anos e a rivalidade variou ao longo dos anos. A rua, que se chamava oficialmente rua Aluísio Azevedo, passou a ser conhecida como rua dos espíritos. Além dos terreiros, foi aberta uma loja com produtos de utilidade misticas, o que garantia mais movimento e identidade. O local onde antes era o primeiro terreiro, transformou-se numa churrascaria. Churrascaria divina, era o nome. Alguns clientes e empregados do local diziam que tarde da noite, na parte mais escura do espaço, perto do imenso muro, se viam espíritos e vultos. As vezes no banheiro alguns se deparavam com visões estranhas e sussurros. Todavia, essa fama de lugar com manifestações sobrenaturais não afastava ninguém. Os bebuns do local, assim como os clientes mais refinados adoravam as histórias e disputavam o espaço. Depois se percebeu que cada canto da rua tinha histórias de aparições e fenômenos estranhos. Os moradores antigos e novos davam contas de narrativas absolutamente incríveis. E que Deus tivesse dó de quem não tivesse respeito. Havia várias histórias de castigos imediatos para os profanadores. Como o de um sujeito que foi na churrascaria, bebeu muitas cervejas, xingou espíritos e entidades e foi assassinado à pauladas na calçada do próprio estabelecimento por motivos desconhecidos. Em outra ocasião houve uma discussão sobre a existência ou não de almas do outro mundo que terminou num tiroteio. O resultado foi um dos contendores morto e duas pessoas feridas. Também havia o macabro assassinato de Wilton, conhecido sem teto, bebum que andava por ali. Ele sempre xingava os terreiros, seus donos e as entidades. Foi encontrado morto numa manhã de sábado, com o ventre aberto. Parte de suas vísceras espalhadas pelo chão. A polícia nunca descobriu o autor do crime. Os boatos falaram de rituais satânicos, pois segundos alguns, órgãos do homem estavam ausentes. Os donos dos terreiros iniciaram juntos uma campanha de purificação para afastar as más vibrações que começavam a querer dominar a rua. Uma coisa era crença geral: não havia lugar com um fluxo maior de almas e divindades que a rua dos espírito, antiga rua Aluísio Azevedo. Apesar dos acontecimentos violentos, de histórias de feitiçaria interesseira, o lugar se mantinha firme como um lugar de devoção e busca espiritual. "As coisas ruins gostam de se aproximar de quem faz o bem", dizia pai Miguel. "Nós temos que ficar vigilantes o tempo todo." Foi no meio dessa fama toda que D. Silvana comprou uma casa na rua dos espíritos. Acreditava que somente naquele lugar podia realizar seus intentos. Passara anos juntando dinheiro para comprar uma residencia naquele lugar que considerava sagrado. Todavia, o que ela buscava não era visto como algo nobre pelos lideres espirituais do lugar. Mas D. Silvana mantinha isso muito bem em segredo. Foi numa noite de sexta feira que ela fez um louco e hediondo ritual que tinha como objetivo evocar forças demoníacas. Naquela mesma noite, uma gangue realizou um massacre atirando a esmo nas pessoas. Foram oito mortos e inúmeros feridos. O motivo do ataque tinha sido motivado por causa de uma disputa de território para a venda de drogas. "Se a rua dos espíritos não for nossa, não vai ser de ninguém", dissera um dos autores do massacre. D. Silvana acreditou ter sentido a presença de demônios naquela noite. No outro dia, enquanto todos estava de luto, ela sentou-se nua sobre símbolos desenhados no chão do quintal e viu diante de si, as almas do mortos recentes e diabos pretos e vermelhos. "É o fim da rua dos espíritos, agora essa rua é minha e dos demônios!"

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