Eram três... Três
moleques com perfis absolutamente comuns. Tipos que nascem e fervilham nas
periferias em todas as partes do mundo. Gostavam de futebol, TV, vídeo games e
bobagens da internet. Também gostavam bastante de filmes e histórias de terror,
mas nada se comparava ao interesse em desafiar um ao outro em brincadeiras
estúpidas de demonstração de coragem. Quem tinha coragem do comer a pimenta
vermelha do quintal da Dona Carla, fumar mais cigarros de uma vez, entrar no
terreno de tal vizinho enfrentando cães bravos ou passar de bicicleta na
calçada do Velho Matias, que corria atrás de quem fazia isso, ameaçando dar
tiros de sal no engraçadinho. Lino, Guto e Valdo. Valdo tinha quinze e os
outros dois, quatorze anos de idade. A garantia de dor de cabeça na escola para
qualquer professor. Em certa ocasião, haviam, em desafio mutuo, escalado uma
imensa mangueira na praça do bairro. Não conseguiram descer. Foi necessário que
o caminhão do corpo de bombeiro viesse resgatar os três moleques. Apesar das
reprimendas dos adultos e pais, foram recebidos na escola como heróis no outro
dia. O que os fez alimentar ainda mais o gosto pelos desafios. Num fim de
tarde, com outros moleques, ficaram ouvindo histórias sobre o célebre assassino
do bairro, George Alves, conhecido como George Gore, que matara cinco viciados
e escondera os corpos. Falaram que, na sua casa em ruínas, diante de um velho
espelho, era possível invocar a imagem do matador. Bastava chama-lo três vezes
seguidas com uma vela na mão. Credo, disse um dos moleques presente. Deus me
livre, falou outro. Ninguém teria coragem de fazer um negócio desses... Os
garotos foram indo embora. Apenas Lino, Guto, Valdo e outro garoto ficaram. Este
último era quem explicava como funcionava a brincadeira. Dizia que só quem
tivesse muita coragem faria uma coisa daquelas. E foi então que os três amigos
começaram a velha mania de desafiar um ao outro. Miqueias, o outro garoto achou
que não fosse um desafio que se fizesse a ninguém. Era perigoso ver a alma de
George Gore. Diziam que ele voltava do túmulo e matava pessoas. Os outros
duvidaram, mesmo achando possível ver alguma aparição. A alma dele pode até
aparecer, mas matar... Fantasma não mata ninguém, galera, disse Guto. E assim o
desafio tomou ares de divisores de água entre corajosos e covardes. Miqueias os
advertiu novamente antes de ir. Os garotos ficaram um tempo calados, mas logo
voltaram ao assunto. Minutos depois estavam diante da suposta casa de Gore. O
que não era verdade. Da casa do maníaco, restava apenas o terreno baldio.
Aquela era apenas uma residência próxima do acontecido, entretanto, suficiente
para receber atribuições da casa do assassino por causa de seu aspecto
abandonado. No lugar da vela, decidiram usar um isqueiro. Tinha chama, devia
funcionar. Guto foi o primeiro. Os dois ficaram olhando sua bicicleta. O garoto
entrou e foi até a sala. Tentava se concentrar em realizar o desafio logo e
deixar a obrigação para os outros. Achou o espelho no corredor. Estava
quebrado, apoiado na parede. Acendeu o isqueiro, suas mãos tremiam. George
Gore, George Gore... Antes que pudesse falar a terceira vez, um facão acertou a
lateral de seu pescoço e parte da nuca. Caiu no chão e a arma desceu violenta e
certeira mais vezes. Bem na garganta, o impedindo de emitir maiores sons. Lá
fora, Lino impaciente, disse que ia ver o que acontecia. Soltou a bicicleta.
Foi e logo que encontrou o corpo do amigo, foi atingido de forma semelhante.
Valdo ficou hesitante. Por que tanta demora? Talvez os dois estivessem lá
dentro esperando para pregar-lhe uma peça. Bem, não ia cair naquela. Saiu
pedalando, mas logo deu meia volta. Não aceitaria ninguém o chamando de covarde
a semana toda. Entrou na casa com bicicleta e tudo. Foi recebido com um golpe
na testa. Caiu e foi esfaqueado rápida e violentamente. Então o mendigo, o
velho Jonas, com o facão ensanguentado decidiu que era melhor ir embora dali.
Aqueles demônios não iam parar de vir, pensou ele. George Gore não vinha, mas
mandava os deles, concluiu. Melhor ir embora.

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