A casa pertencia ao meu avô. O pai da minha mãe. Fora construída por ele numa outra época, num
tempo de prosperidade, de fartura. Fartura essa que era determinada por fatores diferentes dos de hoje. Quando um patriarca tinha muito poder, o avô que eu mal conhecera, que havia falecido quando eu tinha cinco anos. Fomos eu, meu pais e um irmão passar uns dias na residência. Na época era ocupada por duas tias e um tio que exibiam um constante ar tristonho. Lembro que estava na idade em que as crianças costumam ter medos de fantasmas, mas eu não tinha. Recebera de meu pai, engenheiro de formação, cético, uma cultura de rejeição ao supersticioso e improvável. E eu tinha orgulho disso. Ao chegar na casa, achei o local fascinante. Era uma casa grande, de teto alto que não se constrói mais hoje em dia. Além disso, havia muitas coisas interessantes: moveis antigos, objetos de decoração bastante exóticos, verdadeiras relíquias, quartos e mais quartos. Um cheiro constante de óleo de linhaça em alguns cômodos e um clima estranho e austero. Para mim e meu irmão, um lugar incrível para explorar. Passamos um dia tranquilo naquele lugar. Um grande jantar em família no inicio da noite, conversas longas e descontraídas depois, na grande sala de estar. Depois fomos dormir. Eu e meu irmão fomos alojados num quarto de visitas onde havia duas camas de solteiro. Deitei para esperar pelo sono, mas logo percebi que havia algo a mais naquela casa além de pessoas tristes e moveis velhos. Tudo começou com barulhos. Aquele tipo de clichê: passos, ruídos, portas batendo. Coisas que se podia refutar com explicações simples. Todavia as perturbações foram aumentando. Recordo que chamei meu irmão e ele não respondeu, imerso num sono profundo. Tudo na casa parecia vivo, prestes a sair do lugar. Uma verdadeira floresta em termos de barulho. Fiquei sentado, encolhido num canto e cada vez mais ficando apavorado. Não sei dizer quanto tempo passei naquela agonia. Não eram apenas os sons que me exasperavam, mas havia algo de ameaçador ali. Alguma coisa antiga e má! Algo além do mundo racional que eu conhecia, inverso das luzes do dia. Não tinha coragem de levantar e chamar meus pais, nem conseguia dormir. Sentia apenas vontade de chorar. Tudo era pavor e pioraria. Em um momento olhei em direção à porta que estava aberta e vi uma sombra em um formato humano. Como se contemplasse uma silhueta de encontro à luz. Aquela coisa veio se esgueirando e em momento algum eu tive esperança de que fosse alguém. Senti minha carne tremer com o arrepio mais semelhante a calafrio que senti na vida. Achei que podia desmaiar e isso pareceu por um breve momento algo de bom. Quem sabe eu não acordaria pela manhã com as luzes e livre daquilo. Mas não houve misericórdia. Fiquei uma eternidade contemplando aquela aparição se esgueirando pelo quarto. Não tinha voz para gritar, apenas me encolhia e tremia dos pés a cabeça. O vulto fez um sinal. Ergueu a mão e o levou ao rosto. Não podia ver detalhes, mas a impressão que tinha era que ele erguia o dedo indicador diante dos lábios pedindo silêncio. Ouvi um riso sufocado e finalmente o vulto desapareceu. Senti uma espécie de fraqueza e me estiquei na cama. Cai no sono, mas acho que foi algo mais semelhante a um desmaio que qualquer outra coisa. Fomos embora daquela casa no outro dia pela manhã. Nunca mais retornei ali. Quando meus pais vinha visitar os parentes, eu ia pra casa do meu avô paterno. Também nunca contei nada a ninguém sobre o ocorrido. Lembro que meu pai apenas mencionou que a casa era barulhenta a noite. Sei absolutamente que não era um sonho. Pensei nisso durante anos. Também soube de outros parentes que muitos consideravam aquela casa assombrada. A única coisa que posso dizer com certeza é que existem coisas além do que os olhos veem, e estas não se revelam a todos. Eu tive minha porção do sobrenatural e de medo. As vezes a lembrança desse episódio me tira o sono a noite... Mesmo depois de tantos anos.

Nenhum comentário:
Postar um comentário